sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ouros

Voltou para casa sozinho, mas de consciência descarregada. JoH tirou a jaqueta e então mergulhou novamente na depressão. Acendeu um cigarro. Contemplou pela janela as paredes sujas e pichadas, o chão esburacado, a noite coberta de nuvens e o barulho tão tranquilizante de automóveis acelerando em sua cidade. Tudo menos o silêncio.

A degradação do ambiente ao seu redor refletia nele e em sua casa. Seus olhos já estavam envoltos pelas olheiras. Era questão de tempo até seus hábitos detestáveis destruírem seu corpo sadio, mas ele não se importava. Afinal de contas, não há benefícios em uma vida longa para alguém como ele: até quando ele conseguiria dividir o corpo com JoH?

Mas não era essa a questão. A questão era: o que ele queria reconquistar. Tudo envolvia um violento jogo de poker consigo mesmo: blefar e "go all in" ou então jogar cautelosamente. Era questão de tempo. Tudo questão de tempo.

Auto-estima, orgulho, respeito, coragem, ousadia. Tudo isso estava em jogo.

E era JoH quem dava as cartas, agora.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Espadas

O chão do quarto estava coalhado de garrafas vazias, uma tentativa inútil de fazer com que as vozes parassem de assombrá-lo.

Lentamente, pegou uma garrafa do chão. Estava completamente sóbrio e sabia disso, ainda que desaprovasse a ideia. Urrou e então arremessou-a contra a parede. As vozes continuaram. Sussurros, gritos. Sua cabeça projetava tudo que pudesse deixá-lo triste. Mas ele deixou sua raiva aflorar. Urrou mais algumas vezes, como um animal ferido. Desferiu socos e pontapés contra as paredes. Jogou outras garrafas. Tentou fazer com que as paredes fossem as culpadas e então descarregou sua ira nelas. Mas todas as tentativas eram vãs quando o objetivo era livrar-se de tudo aquilo.

Levantou-se e então caminhou em direção à porta. Pegou sua jaqueta no caminho e vestiu-a.

As vozes cessaram

Era ela o gatilho de suas personalidades múltiplas, e ele sabia disso. O eu magoado e rancoroso dava lugar ao auto-controle, à mente clara e funcional de sua segunda personalidade, que se autoproclamava JoH.

Era hora de as coisas voltarem a ser como eram antes.
Ele ansiava por isso, precisava disso.

E, finalmente, ele tinha conseguido.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Deixai, ó vós que entrais, toda a ESPERANÇA

Quando não se tem escolha, se toma o que se tem.

Como eu já disse, a vida pra mim é uma via de mão única. Eu lutei contra, eu neguei isso: minhas crenças foram ofuscadas porque eu não queria acreditar nelas. Não dessa vez. Nunca dessa vez.

E quando você vai contra o que você acredita, você quebra.

Não importa o quanto se lute. Quando algo que você acredita com todas as suas forças vira um obstáculo, a batalha está perdida. Você pode lutar contra os seus sentimentos, contra a razão, contra outras pessoas.

Mas uma batalha contra si mesmo é SEMPRE uma batalha perdida.

É nesses momentos, de extrema confusão, que você muda. É quando o que você deseja do fundo de seu cerne simplesmente não condiz mais com a realidade, que você entra em paradoxo. E paradoxos não são coisas legais, porque você torna-se obrigado a optar por uma coisa ou outra. Nesses momentos desesperados é que você se agarra naquilo que pode torná-lo parecido com o que você quer ser.

Chega de metáforas confusas.

Por muito tempo, eu lutei. Contra mim, contra os outros, contra quem viesse. Perdi, ganhei, empatei, estraçalhei, fui humilhado. Minha paz acabou há tempos, mas eu insisti em fingir que ainda a tinha. Fingi que aquilo que eu mais renego, a esperança, ainda existia.

Pois bem, eu estava errado.

Li naquela porta "Deixai toda a esperança, vós que entrais."

E com uma respiração profunda e uma piscadela de remorso, cruzei-a.

Minha esperança, o resquício que existia, ficou para trás.

Daqui para frente, eu só quero a realidade.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Wherever I may roam...

Não estava onde alguém pudesse encontrá-lo.

Não estava em nenhum lugar imaginável.

Somente quando um lapso de descontrole trouxe à tona todas as suas fraquezas, foi que se descobriu o que havia acontecido. Algo mudou, radicalmente, e ninguém tinha a menor noção disso. Alguém sumiu, mas não foi notado; alguém desapareceu, mas não aos olhos que sempre o viam. Não se sabe porque, ou como; se foi intencional ou não. O que se sabe é que, no fundo, algo aconteceu. Alguém sumiu e alguém mudou.

O Orgulho sumiu.

E, agora, é preciso encontrá-lo.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Interlude III: Twelve Tolls to Midnight

Sempre no fim do ano bate aquela nostalgia.

Não sei se com vocês é assim também, mas sempre que o ano chega ao fim, eu faço uma retrospectiva e vejo o que aconteceu de bom e de ruim. Na maioria das vezes, eu noto que estive feliz durante o ano inteiro, mas que o saldo de coisas negativas foi maior. E então nasce aquela coisa de "que o ano que vem seja melhor".

Mas, sinceramente, eu nunca realmente acho que vá ser.

Porque trocar de ano não significa nada além de acordar de um dia MUITO longo. Em pouco tempo, a rotina volta. Faculdade, estágio, fins de semana com os amigos: esses são meus anos, sempre. As coisas, no fim das contas, tem a tendência de se manterem iguais. Podem mudar as pessoas, mudar os fatos, mas a verdade é que sempre parece que as coisas não foram tão boas como poderiam ter sido.

E isso pra mim é bobagem.

Diabos, a gente erra, e vai errar pra sempre. Ninguém vai passar um ano inteiro tomando decisões corretas. Aliás, é difícil passar UM DIA sem fazer uma besteira. Lógico que as coisas nunca vão ser tão boas quanto poderiam ter sido. Não tem como.

Esse ano, pra mim, foi complicado. Sei que outras pessoas também acharam isso. Não foi meu melhor ano, talvez figurando entre um dos mais difíceis. Cheguei ao fim dele exausto, querendo descansar e sem aguentar mais o que acontecia. As coisas não se ajeitaram, mas eu me acostumei ao peso.

Foi um ano onde eu aprendi muita coisa sobre eu mesmo... e sobre como eu, às vezes, preciso seguir minha vida contando somente comigo mesmo.

Aos que acham que muda alguma coisa, desejo um Feliz Ano Novo.
Aos que, como eu, não dão a mínima... até a próxima postagem.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lost and Found 16 (Final): Angel of Babylon

A espada colidiu contra minha Lâmina, enquanto eu desviei a lança de meu corpo com a mão livre. Colidi contra o desgraçado e ambos caímos no chão.

-Ius egit vi.-repetiu ele. (A justiça precisa de força)

-Soberbia aegis est!- foi minha resposta. (O orgulho é um escudo)

Uma enorme onda de energia saiu das mãos de Justiça, mas colidiu com uma pesada barreira espiritual. Chutei, novamente, as armas de Justiça para longe.

-Ius et potestas in...-gritou ele, em desespero, mas eu fui mais rápido. (Justiça e poder na ...)

-Silence de mort!-gritei. (Silêncio da morte...)

A boca de Justiça parou de emitir som. Ele tentou rastejar para longe, mas eu segurei-o pelo pé. Agachei-me ao seu lado e então falei:

-Nex Sacramentum, meu caro. Eu não vou matá-lo.

Os olhos de Justiça arregalaram-se. Estalei meus dedos e a voz voltou ao Eterno.

-Porque?

-Poruqe você não fez nada contra mim além do que achou que deveria fazer. Eu nunca matei sem motivo; exceto, talvez, Esperança. Você me enfrentou não porque queria, mas porque decidiram que VOCÊ deveria fazê-lo. Você é como eu, um pouco mais poderoso, mas eu sou menos prudente. E é isso que nos levou a essa situação. Levante-se, Justiça, eu não tenho intenção de matá-lo.

Estendi minha mão para que ele levantasse. Ele ainda parecia incrédulo. Ouvi alguém batendo palmas.

-Que bonitinho, Orgulho. Você amoleceu seu coração malvado de pedra. Poupou alguém de sua própria raça. Interessante. Patético.-disse uma voz.

Olhei para a origem da voz. Era uma criatura alta, com quatro asas plumosas cinzentas e um par de chifres surgindo da testa. Seu rosto era cadavérico, um pouco esquelético, e seus olhos eram duas orbes verdes brilhantes. Garras saíam de suas mãos que seguravam uma espada feita de ossos. Seus pés estavam descalços, mas o resto das partes visíveis do seu corpo eram cobertas com escamas.

-Samael.-disse Justiça.-O que você quer?

-Daemon Daemone Pellitur.-disse ele.

Ouvi Justiça gritar e então desaparecer.

-Pelo visto, seu assunto é comigo.-falei.

-Não. Meu assunto é com seu irmão, Revés. Mas eu acho que posso chegar nele através de você.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Lost and Found 15; ... and Justice For All

Justiça atacou-me com as duas armas. Esquivei-me de seus golpes, bloqueei como podia suas investidas. Ira avançou contra meu inimigo, também. Ele não gostava de mim, mas ainda preferia que eu sobrevivesse. Se Justiça fosse derrotado, certamente pensariam duas vezes antes de atacar a mim ou a qualquer um de meus aliados. Mas aquela não era uma batalha para mim.

Muito menos para Ira.

Justiça acertou-me um chute no peito que me fez cair de costas no chão. Apenas um pacote de sombras colidiu com o chão e então se desfez. Eu apareci alguns metros para trás. Ira, por outro lado, não teve a mesma sorte. A lança de Justiça veio em sua direção e ele bloqueou o golpe com o cabo de seu machado. No entanto, a segunda arma do Eterno fez um arco ascendente diagonal e então cortou o Pecado ao meio.

Nova explosão de luz. Novo Eterno morto.

-Ele não era parte de minha sentença, Justiça.

-O amigo de meu inimigo também é meu inimigo, Orgulho.

-Bastardo.

Avancei na direção do adversário, minha Lâmina ansiando pelo sangue dele. O infeliz arremessou a lança em minha direção, mas consegui esquivar-me dela. A arma apareceu na mão de Justiça de novo e ele tentou uma estocada, mas eu desviei a arma. A outra arma veio em minha direção, mas bloqueei-a com minha Lâmina. Nossos corpos colidiram.

Ele caiu no chão, eu não. Chutei sua lança para longe e então chutei a outra arma. Ergui minha Lâmina para golpeá-lo.

-Ius egit vi.-disse Justiça.

Senti como se uma enorme mão tivesse me dado um soco no peito. Fui atirado a talvez trinta ou quarenta metros de altura e uns cem de distância. O desgraçado era forte.

Mas eu ainda o enxergava.

Voltei-me de frente para o chão e então teletransportei-me. Apareci no ar, caindo sobre as costas do já erguido Eterno. Ele nem iria ver daonde veio o golpe.

E então, quando eu estava a quase dois metros dele, vi sua espada vindo em minha direção.