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domingo, 12 de agosto de 2012

EPÍLOGO - The Morning Star's Pride

Lucifer e Miguel pasmaram com a ideia infeliz de seu irmão, que agora tinha condenado ambos a conviverem para sempre. Eles poderiam ter lutado entre si, mas, naquele momento, existiam coisas mais importantes a serem feitas.

A Estrela da Manhã tentou reorganizar suas tropas, mas em vão. A carnificina tomou o campo de batalha, e o chão empapou-se com sangue. Sangue de anjos, de demônios, de titãs, de eternos, de humanos... Muito sangue.

Lucifer sentiu uma conhecida presença pegá-lo pelo pé e arremessá-lo em direção ao chão.

-Ora, ora... Você reapareceu, Orgulho. Seu irmão o procurou em minhas terras.

-Antigas terras, você quis dizer? Deve doer em você ver que agora tudo que você tem são essas míseras terras que vai ter que dividir com seu irmãozinho.

-Seu irmão não está muito melhor. Revés foi morto. Eu o matei.

-Você mente, Estrela da Manhã.-respondi, furioso.-Mas o seu tempo chegou ao fim.

-Eu esperei tanto tempo por isso, Orgulho. Tanto tempo...

Era chegada a hora. A hora em que eu, Orgulho, antigo portador da Lança do Destino, executor dos Cavaleiros do Apocalipse, iria enfrentar o mais antigo de meus rivais.

Lucifer, a Estrela da Manhã.

Nossa luta foi intensa. A cada golpe defendido, ambos sorríamos: nossa vontade era que durasse para sempre. A sede de sangue, a cólera por trás de cada golpe, o desejo de vingar-se de cada uma das vezes que nós humilhamos um ao outro. Aquela fúria, tudo que girava ao redor e que fez com que até mortais inimigos como anjos e demônios parassem para assistir, era o que realmente fazia valer a pena eu ter interferido no Apocalipse.

Éramos inimigos, mas éramos também muito semelhantes. Ambos somos conhecidos como "assassinos de seu próprio povo", "traidores", "escória". Mas ambos surgimos, crescemos e nos dedicamos a fazer o que achávamos que tinha que ser feito. Lucifer se revoltou quando percebeu a cruel realidade por trás da existência dos anjos. Eu me revoltei quando soube que a história de minha própria raça tinha sido selada por outros que não nós. A Estrela da Manhã era, sim, uma criatura temível e de comportamento cruel, mas também era admirável; e eu sabia que ele pensava o mesmo de mim.

Durante o tempo que eu estive isolado, eu percebi que, no fim das contas, meu caminho me levaria de volta à frente de Lucifer.

Foi sempre Lucifer.

Lucifer sempre foi meu objetivo final.

Lucifer foi, de fato, o meu final.

Pois nossa luta durou muito, mas não para sempre. E, no fim de tudo, eu percebi que ele, realmente, era mais poderoso que eu. Um sorriso de triunfo percorreu os lábios dele quando suas garras atravessaram, e obliteraram, minha essência. Senti meu corpo esvaindo-se enquanto uma jatos de energia emanavam de mim e destruíam anjos, demônios e eternos no campo de batalha.

-Fiquei curioso com uma coisa, Orgulho... você morre como um Eterno... ou como um Deus?-perguntou ele, gargalhando.

-Acho que teremos que descobrir.-respondi, também sorrindo.

-Ah, Orgulho... finalmente, eu me vinguei de você.-disse Lucifer.-Esse foi o fim de toda sua história.

-Sim... mas ainda assim, eu o venci, pois você só está preso aqui porque eu eliminei os Cavaleiros. Você pode ter destruído o Orgulho... mas eu destruí o SEU orgulho. Viva com isso.

Essa foi minha luta.

Esse foi o meu final.

The long coming end is near...

Estranho.

Eu sacrifiquei muita coisa para eliminar os Quatro Cavaleiros. Arrisquei minha existência, a de Revés, perambulei por caminhos que pouquíssimas entidades puseram os pés em toda a existência. E agora, quando eu estava tão perto de  meu objetivo, eu não vi mais motivo para fazê-lo. Morte não é e nem nunca foi o problema.

O que significa que os Cavaleiros também não eram e que minha missão foi em vão.

E isso requer algumas respostas.

Minha lembrança era clara: os Cavaleiros eram os responsáveis por liderar os exércitos que destruiriam a tudo e a todos. Pude ver os rostos de Eternos, anjos e demônios sendo esmagados sob seus cascos. Matá-los traria paz ao mundo... Morte não estava blefando, eu pude sentir. Os outros três me desafiaram, mas Morte simplesmente se entregou. Era quase como se eu o estivesse libertando de seu propósito.

Minha mente voava, a dádiva de Loucura tentando formar uma linha de raciocínio por trás daquele oceano de informações que eu tinha acabado de receber. Não existia nenhum sentido naquilo, e o destino precisa de uma lógica. O destino é um curso, e todo curso é formado por infinitos pontos.

O Destino me devia respostas.

-Revés, existe algo que eu preciso fazer. Suponho que você também tenha seus afazeres.

-Sim, tenho. Nos veremos no futuro próximo?

-Provavelmente.

Revés desapareceu.

-Não posso vê-lo, mas sei que você está aqui. Não posso ouvi-lo, mas sinto a sua presença. Minha mente é capaz de percorrer caminhos absurdos, Destino, mas somente você pode me explicar o que aconteceu.-falei, em voz alta.

Passos.

-Sim, eu posso. A questão é: farei?-respondeu Destino.

-Não há mais nada em jogo. Se minhas ações não mudaram o curso do mundo, então o Mar do Destino não contém a verdade.

-O Mar do Destino contém muitas coisas, Orgulho, mas não tudo. As respostas que jazem lá não são absolutas. O destino não é um mar, o destino é uma descarga elétrica: pode-se estimar o ponto de partida e o ponto de chegada, mas não se pode prever o caminho. Os humanos perceberam algo que muitos de nós falham em perceber: segundo eles, você pode estimar a velocidade OU a posição de uma partícula, mas não ambos. Você pode conhecer o destino ou fazê-lo, mas você não pode tentar concretizar o Destino que viu.

-Então foi em vão, o que eu fiz? Tudo que eu dediquei, as entidades que destruí, as forças contra as quais me coloquei?

-Não, não foi em vão. Mas a verdade é que você não era uma peça do Apocalipse. Você interveio, e sua intervenção foi poderosíssima. Mas ela não foi derradeira. A grande guerra ainda irá acontecer.

Inacreditável. Eu já fui derrotado muitas vezes, mas nada poderia ser pior que aquilo. Nada feriu tanto o meu orgulho.

-Essa foi a última de suas perguntas?

-Não. A última é: porque você veio respondê-las?

-Porque o Destino sempre lhe dá as ferramentas que você precisa para tomar as suas decisões.

Minha decisão está tomada.

Eu não irei interferir de novo... até que chegue o fim dos dias.

You can't kill Death... or can you?

Quando reabri meus olhos, pude ver Revés se aproximando.

-Você conseguiu.-disse ele.

-Você parece chateado.- respondi, enquanto me esforçava para ficar de pé.

-Você me mandou embora de lá para que eu sobrevivesse ou porque você quer a glória toda para você, Orgulho?

-Me ofende ver que você pensa isso de mim, Revés. A verdade é que eu preciso que alguém esteja pronto para nadar contra a corrente se eu morrer. E você é o único em quem eu confio para isso. Se eu morrer, preciso que alguém continue, e termine, o que eu comecei. Quem mais faria isso?

-Ainda falta um Cavaleiro, Orgulho. Vamos.

Voamos até uma cidade. Morte foi inteligente, pelo menos. Não se escondeu em mais um deserto. Embora nós pudéssemos perceber as pessoas, elas não nos percebiam. Estávamos entre os mundos, e somente os humanos mais sensíveis poderiam perceber a nossa presença. Eu, sinceramente, não estava preocupado.

-Tem algo estranho aqui. O portal de Morte não está bloqueado.

-Como assim?

-Os outros dois portais estavam selados, mas esse não está. Morte poderia sair daqui a qualquer momento... se é que já não o fez.

Revés fez um corte em sua mão e deixou o sangue pingar. Um vórtice surgiu e nos tragou para dentro. O plano de Morte, sem dúvida, deveria ser o mais assustador de todos.

Mas não era.

Não havia nada no Plano de Morte além de um nephilim, que era o próprio Cavaleiro. Sua arma e sua armadura estavam no chão, e o monstro contemplava o mundo através de uma pequena fenda no seu plano.

-Morte... chegou a sua vez.

-Ah, sim. Você veio, finalmente. Eu estava esperando-o.

Olhei para Revés. Ele estava entendendo tão pouco quanto eu.

-Você veio me matar, não veio?

-Sim...

O gigante encarou-me.

-Pois bem... mate-me.

Caminhei em sua direção, mas Revés me conteve.

-Espere...-disse ele.-Você é o único que não ofereceu resistência ou exigiu sacrifício. Você poderia ter saído daqui a qualquer momento, mas não o fez. O que houve com você, Morte, que o fez tão diferente?

Morte sorriu.

-Você vê, Orgulho? Seu ódio o cegou, mas ainda existem alguns que conseguem ver. Seu irmão, por exemplo. A verdade é que eu desisti do Apocalipse. Eu desisti de me vingar do mundo, porque eu vi esse mundo crescer. Eu vi tudo que surgiu e vi o quanto meu povo cresceu. Meu pai é um louco cujo ódio supera o seu, mas eu não. Meus irmãos puxaram a ele, mas eu nasci e cresci com os humanos.

Aquilo só podia ser uma piada... mas não era.

-Então você simplesmente vai se recusar a ser invocado?

-Não. Eu simplesmente vou me recusar a obedecer meu pai. Eu não quero o Apocalipse, e não quero fazer parte dele. Se você planeja me matar, faça-o, mas a verdade é que você não precisa de mim e sabe disso. Eu sou Morte, o cavaleiro. Morte pode ser o meu destino, mas não será o meu legado.

-Você não pode mudar o seu propósito, Morte.

-Não, mas posso desistir dele.

-Como posso acreditar em você? A Morte é traiçoeira.

-É. Mas ela também é imparcial.

Diabos, ele é esperto.

-Vamos, Revés.

-Você não vai matá-lo?

-Não.

sábado, 11 de agosto de 2012

There will always be blood... my blood...

A terra moveu-se, e então uma enorme boca surgiu. Aquela enorme boca foi seguida por muitas outras bocas ligadas entre si por diversos músculos e ossos. As bocas secretavam um ácido que derretia a própria areia e, em segundos, já não existia sequer o corpo de Augustus.

-Você...-sussurraram as bocas.-Você matou...

-Olhe pelo lado bom, Fome.-respondi.-Você vai poder encontrá-los de novo.

Conforme o chão sumia abaixo de nossos pés, sendo substituído por mais bocas, eu e Revés voamos.

-Você tem certeza que quer lutar junto, Revés? Eu não esperava que as coisas fossem ser assim...

-Esse é seu problema, Orgulho. Você nunca espera.-disse ele, sorrindo.

Um círculo de eletricidade formou-se em volta de Revés e então transformou-se em um raio, que acertou o amontoado de bocas. Várias das bocas contraíram-se, mas outras moveram-se como uma gigantesca onda na direção de Revés. Diversos tentáculos com bocas nas extremidades formaram-se e atacaram Revés, mas eu cortei cada um deles antes que eles chegassem ao alvo. Os tentáculos foram comidos pelas outras bocas e então novos tentáculos se formaram.

De repente, diversos jorros de ácido foram cuspidos sobre nós. Pude sentir meu corpo sendo corroído, mesmo que eu não tivesse propriamente matéria. Isso sim era inesperado. Mas eu sabia o que tinha que fazer.

-Revés, rápido! Abra um portal para sairmos daqui!- berrei.

Quase que instantaneamente, um círculo surgiu ao lado dele. Movi-me na direção do portal e encarei-o.

-Vejo você mais tarde.

Peguei-o pelo braço, arremessei-o para dentro do portal e então usei minha magia precária para fechá-lo.

Revés era poderoso, mas eu não queria arriscar matá-lo. Era meio lógico, para mim, que essa batalha duraria muito mais do que eu planejava. Eu podia dar conta de mim mesmo... eu podia até morrer, mas eu não iria arrastar ninguém para meu túmulo.

Saquei a espada que peguei do corpo de Guerra e então comecei a golpear. Eu não tinha a menor ideia do que eu queria acertar, mas eu queria acertar alguma coisa. O ácido começou a corroer-me, e então novamente utilizei minha magia.

-Soberbia aegis est! (O orgulho é um escudo)

Pude sentir a dor diminuir, mas não parar. Lembro-me de golpear até não aguentar mais e então a Terra tremeu. Ele estava enfraquecendo...

Esperei até que aquela massa disforme de bocas me cercasse e então fiz o que eu achei que poderia funcionar.

A Fome só morre quando é saciada.

Fiz inúmeros cortes em mim mesmo e então deixei meu sangue verter, até que cobrisse a espada inteira. E então eu golpeei.

Mais um uivo, mas, dessa vez, de dor.

Senti o mundo despencando em minhas costas enquanto o peso daquele deserto inteiro desabava sobre mim. Meus olhos fecharam-se.

Meu corpo não sentia mais nada.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Feed my Hunger... feed Famine...

Eu, Revés e Augustus caminhamos durante um bom tempo até encontrarmos a entrada para o plano de Fome. Era um deserto do pior tipo possível, e eu percebi que Augustus estava visivelmente desgastado. Revés proferiu algumas palavras e então o humano recuperou-se.

-Agora você consegue curá-los?-perguntei, espantado.

-Curar... é, vamos dizer que sim.

Pude ver, no entanto, alguns ferimentos se fechando no próprio Revés. Interessante, ele agora consegue fazer alterações nos destinos dos indivíduos. Meu irmão tinha tornado-se imensamente poderoso e eu sequer tinha percebido. Talvez eu devesse ser ainda mais grato por tê-lo ao meu lado, mas agora não era hora para sentimentalismos.

Agora era de encerrar a influência de mais um dos Quatro.

As mãos de Revés fizeram alguns desenhos no ar enquanto o sol do deserto castigava Augustus. O Senhor dos Corvos terminou sua magia, mas nada aconteceu. De súbito, pudemos ouvir um uivo. Lembrei-me da invocação que usávamos para convocar os cavaleiros:

"E no leste, ecoa e some
O uivo mórbido da Fome"

Ele estava aqui.

Então eu finalmente percebi o que se passava. Fome nunca foi preso em outro plano, ele simplesmente disfarçou-se nesse. E o disfarce foi tão perfeito que ninguém percebeu. Fome não estava no deserto.

Ele era o deserto.

-FOME! TRAGO-LHE SEU SACRIFÍCIO!-berrei. Então olhei para Augustus.-É chegada a hora.

Minha Lâmina cravou-se no peito do mortal, e então seu sangue verteu. No entanto, tão logo ele encostava na areia, ele desaparecia.

Fome estava faminta.

E pelo visto, aquilo era só um aperitivo.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

It's your Destiny, not your choice... live, or die, with it...

Caminhamos até Revés, minhas asas formando uma barreira ao redor de Augustus. Quem quisesse recapturá-lo, teria que me enfrentar.

Não me espanta que ninguém tenha tentado.

-Revés... quando você quiser, podemos ir embora.

O Senhor dos Corvos arremessou o anjo que espancava e então cravou sua própria Lâmina no chão. Uma enorme fenda formou-se. Atirei Augustus dentro dela e pulei para dentro. Revés me seguiu.

Foi um bom tempo em queda livre até que finalmente pudéssemos ver o chão. Rapidamente, segurei Augustus. Aterrissamos calmamente e então olhei para Augustus.

-Você precisa de alguma coisa?

-Esclarecimento, talvez... porque você invadiu o céu para me libertar.

-Porque eu preciso de um sacrifício.

-Você poderia sacrificar qualquer mortal, e eu não me sinto tentado a supor que você realmente dá bola para os humanos que vivem e morrem.

-Um humano comum é um sacrifício ínfimo. Eles mal valem a presença não-corpórea de um demônio patético. Não, eu preciso de um sacrifício grande. E uma cria profana que estava presa nos Céus me parece o suficiente.

-Como posso valer tanto, se eu vou reencarnar?

-Não tenho certeza se você vai reencarnar.

-WOW! Espere aí, preciso reavaliar nosso acordo.

Não tenho paciência pra isso. Peguei-o pelo pescoço e então saquei minha Lâmina.

-Você não entende muito bem o que eu falo, não é, mortal? Eu não invadi uma das prisões mais bem guardadas do universo para ter que contar com a sua boa vontade. Se você quiser, eu o entrego pessoalmente para o primeiro arcanjo que eu encontrar e me certifico de que você vai ter a pior eternidade possível. E você já está se aproximando disso... tanto por ter sido resgatado do céu, quanto por estar tentando tornar-me seu inimigo. Eu e Revés invadimos o Céu para buscá-lo. Eu posso jogá-lo nas Areias dos Esquecidos, se você assim preferir. Ouvi dizer que Lucifer não trata bem seus prisioneiros.

-Você é bastante persuasivo.-disse Augustus.

-Você não viu nem a metade.-respondi, e soltei-o no chão.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Freedom to live, freedom to die...

Não que ele fosse um duelista ruim, mas aquela luta estava perdida antes de começar.

A batalha foi curta e brutal. Por respeito, matei-o com um único golpe; não tinha motivos para humilhá-lo. Quando aquele paredão de terra veio abaixo, Revés já tinha dado conta de mais da metade das pombas.

-Revés... vou buscá-lo, me dê cobertura!- berrei.

-Certo.

Um enorme furacão formou-se ao meu redor. Era um pouco perturbador, mas funcionava. Diversos foram os anjos que tentaram atacar-me, mas a magia de Revés era poderosa e antiga. Eles estavam certos em temê-lo. Estavam certos em temer-nos.

Caminhei tranquilamente por entre as celas até encontrar a que eu procurava. Lá dentro, estava uma criatura perfeitamente humanoide, mas que eu sabia que tinha muito a me oferecer. Destruí a porta de sua cela e então peguei-o pelo pescoço.

-Augustus?-perguntei.

-Sim... - disse ele.-E quem raios é você?

-Digamos que eu posso ajudá-lo ou castigá-lo. Eu posso simplesmente levá-lo daqui ou então largá-lo e ir embora. Tudo vai depender da sua boa vontade.

-O que você quer que eu faça?

-Eu preciso que você morra.

Augustus pensou um pouco. Aquela cela era horrível demais, e ele era impedido de se matar a todo custo. Ninguém queria que ele voltasse para a terra. Ele sabia que fazer um acordo com uma criatura que invadiu o Céu para libertá-lo poderia se provar muito pior do que ficar preso pela eternidade, mas talvez valesse a pena arriscar. Ele sabia que iria reencarnar, e que se lembraria de toda a sua vida. Como raios isso poderia ser pior que ficar preso?

-Ok... temos um acordo.-disse Augustus.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A Slaughter in the Heavens

Eu confesso que achei um pouco engraçado.

Eu e Revés caminhávamos tranquilamente enquanto uma falange com dúzias de anjos vinha em nossa direção. Saquei minha Lâmina com um sorriso. Ela já sentia saudades do gosto de sangue. Revés também sorriu, enquanto suas mãos acendiam em chamas. Coitados.

Eles não tinham a menor chance.

O líder da falange fez soar a trombeta de novo. Pelo que eu entendi, aquilo era um aviso: mais alguns passos e eles investiriam. Parei e olhei para Revés, cujos olhos estavam fixos naqueles idiotas.

E então segui caminhando.

Pelo menos uns dez anjos mergulharam diretamente em nossa direção. Abri minhas asas, mas Revés foi mais  rápido. Suas mãos ergueram-se e então verteram jatos de fogo. Os gritos encheram o ar, mas aquilo era só o começo. Os ventos uivaram. Pelo visto, fazia tempo desde a última luta decente de Revés.

Os anjos que estavam em terra avançaram em nossa direção. Deixei que eles se aproximassem e então desapareci, ressurgindo entre eles todos e quebrando a formação. Pude ver o desespero nos olhos dos mais novos e aquilo, de certa forma, me foi revigorante. Minha Lâmina começou a cobrar seu imposto de sangue, colhendo um por um.

E foi nesse momento que o líder da falange interveio.

Quando ele veio em minha direção, confesso que me impressionei. Ele parecia ser bem antigo, mas eu sequer sabia seu nome. De suas mãos, pendiam um machado e um escudo. Ele golpeou o chão, como se desse uma ordem.

E a terra lhe obedeceu.

Uma cratera formou-se ao nosso redor, como uma arena para que duelássemos.

-Quem é você, anjo?- perguntei, sorridente.

-Phael... e devo supôr que você seja o Senhor das Sombras.

-Orgulho, por favor.

O anjo posicionou-se para o combate.

Finalmente, era hora de me divertir.




Where monsters fear to tread...

Alguns desejam viver para sempre, mas a verdade é que isso pode ser bem tedioso. Veja o caso do anjo Phael, por exemplo.

Phael é um anjo antigo, líder da falange responsável por guardar a Prisão dos Céus. Ali, ficavam as criaturas que eram profanas, e perigosas, demais para continuarem livres. Phael era um anjo rígido e muito respeitado, e muito prestativo. Sempre recebia com um sorriso os novatos da falange e cuidava para que os prisioneiros não fossem (muito) maltratados. Ele tem um ofício, que durará a eternidade. Ele é um bom anjo, e vai ficar para sempre no seu cargo.

Agora veja, por exemplo, um de seus presidiários. Ele era culpado por... ter nascido. Era essa sua sentença: ele era uma cria proibida e, portanto, deveria ser punido. Ele não escolheu nascer daquele jeito, mas alguém tinha que pagar e seus pais já tinham sido colhidos pelo tempo. Então, sobrava pra ele. Ele nunca foi problemático, e Phael esforçava-se para reconhecer isso: por mais que aquela aberração não merecesse viver, ele não tinha culpa. Phael e seu prisioneiro passariam a eternidade juntos, assim como vários dos outros prisioneiros.

Isso parece uma vida bem tediosa.

A verdade é que já estavam todos de saco cheio, incluindo a própria falange. Volta e meia uma incursão mal-sucedida de demônios trazia alegria para aqueles guerreiros, que podiam sentir o gosto da batalha para fazer desaparecer o tédio de suas existências. Fora isso, era uma vida pacata.

Quando as trombetas soaram, vários anjos sorriram. Eles correram para seus postos, empunharam suas armas e então entraram em suas formações de combate. Alguns voaram, outros se mantiveram em terra. Suas armas ansiavam por aquele sangue.

Mas havia alguém que ansiava mais.

A eternidade era tediosa.

A eternidade ia acabar.

domingo, 5 de agosto de 2012

You called me Shadowlord, but that never was my name...

-Dois caíram... faltam dois.-disse Revés.

-Sim...- respondi.

Guardei minha recém-adquirida arma e então Revés abriu um novo portal. A mesma sensação desagradável me dominou de novo, e fui tragado de volta para o mundo físico.

-O próximo cavaleiro é Fome. Pretendo deixar Morte por último. Vamos.

Revés e eu nos encaramos. Aquela era mais uma de nossas missões praticamente suicidas que terminavam por dar certo.

-Eu confesso que você me assustou por um momento, Orgulho.-disse ele.

-Eu já lhe feri muito mais do que eu gostaria, Revés. Não tenho planos de fazê-lo de novo.

-Não era disso que eu estava falando.

-Então eu realmente não o entendo.

Revés suspirou.

-Você está disposto a destruir a tudo e a todos. E o pior é que isso inclui você mesmo. O Senhor das Sombras era o mais antigo de seus aspectos. E você simplesmente entregou-o, como se ele não fosse nada para você. Até que ponto a dádiva de Loucura lhe é saudável? Você confia tanto assim no seu sucesso que está disposto a correr o risco de se destruir em vão?

Parei e então olhei para ele.

"Senhor das Sombras era o nome que vocês me davam. Ele só passou a fazer parte de mim quando vocês começaram a esquecer quem eu realmente era. E isso é algo que eu não quero. Aquelas sombras sempre foram a minha maldição. Eu me livrei dele, recuperei-o e então o destruí. Minha Lâmina Eterna nunca fez referência ao Senhor das Sombras.

A verdade é que eu não sou, e nem nunca fui, o Senhor das Sombras.

Para mim, eu sempre fui o Orgulho."

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Every Single War Needs Pride...

Guerra não estava nem um pouco satisfeito. Ele queria me ver morrer, mas não estava disposto a tentar fazer isso com as próprias mãos.

-Você trapaceou, Orgulho.-disse ele, sacando a espada.

-Em momento nenhum. Eu deveria sacrificar aquilo que me fosse mais valioso... e o fiz. Sacrifiquei o mais antigo e renomado de meus títulos, aquele do qual eu - com certeza - era mais orgulhoso. O sacrifício foi válido. E agora... você vai morrer.

-A Guerra é eterna, Orgulho.

-Eterno eu também sou.

Saquei minha Lâmina. Ela não teria utilidade nenhuma, nenhuma arma além da Lança do Destino poderia matar Guerra... a não ser por sua própria espada.

Guerra investiu contra mim. Minha última luta contra ele tinha sido uma surra inesquecível, mas eu estava muito mais poderoso agora. O primeiro golpe dele não cortou nada além de ar, pois eu desapareci e apareci em suas costas. Minha Lâmina cortou-o, e seu sangue sujou meu rosto. Chutei-o para longe de mim e então ataquei de novo. Ele bloqueou meu golpe com sua espada e então novamente, brandiu a arma contra mim. Dessa vez, a esquiva não foi tão fácil. O golpe passou perto de meu rosto e forçou-me a abrir as asas para manter me equilibrado.

Saltei para longe e então voei.

Guerra então invocou uma criatura feita de ossos para que pudesse alçar voo também. Ele era um Cavaleiro, sim, mas a verdade é que não estava tão acostumado assim a lutar montado. Certamente, eu poderia tirar vantagem.

Manobrei agilmente enquanto ele me perseguia, e várias estacas feitas de osso passaram por mim. Fechei as asas e então entrei em queda livre. O cavaleiro fez o mesmo, erro pelo qual ele pagou caríssimo.

Tão logo cheguei a poucos metros do chão, desapareci e reapareci atrás dele. A força que adquiri devido à velocidade somou-se à minha própria força, e foi o suficiente para arrancá-lo do que que quer que fosse aquele bicho que ele montava e arremessá-lo ao chão.

Sem hesitar, arranquei a espada de suas mãos e então decepei-lhe os braços.

-Você pode me dizer que a Guerra é eterna, Cavaleiro... Mas a verdade é que nunca existiu Guerra sem Orgulho.

E então cortei-lhe a cabeça.

domingo, 29 de julho de 2012

The death of the Shadowlord

-Do que você está falando, Senhor das Sombras?- perguntou Revés.

-A verdade é que eu não posso levar meu plano adiante, Revés.-respondi a ele.-É simples. Sem a Lança do Destino, a verdade é que eu estou dividido, e a dúvida me consome. Não posso continuar enquanto eu estiver dividido.

-Então você veio até aqui  para MORRER?- disse ele, incrédulo.

-Eu vim aqui para realizar um último sacrifício, meu irmão. Você, melhor que qualquer um, sabe que eu preciso de convicção para fazer o que devo fazer. E essa convicção está oculta, agora, sombreada por outras ideias. Guerra, se meu sacrifício for aceito...

-Eu serei libertado.

-Revés... detenha-o se isso acontecer.

-QUE?-perguntou meu irmão.

Ajoelhei-me, com os olhos fixos em Guerra. Ele sorria. Saquei minha Lâmina e então enterrei-a em meu peito. Senti dor, muita dor. Senti minha essência se partindo, senti o mundo desvanecendo ao meu redor. Meu poder se esvaía, lentamente. Ouvi Guerra gargalhar e também vi Revés desesperado. Sim, o que eu fiz foi errado. Mas era necessário.

Era a única forma.

Um jorro de energia emanou de meu corpo enquanto minha essência era partida.

Tão logo a luz cessou, pude ver expressões de espanto no rosto de Revés e de Guerra.

-Eu, Orgulho, liberto o Cavaleiro do Apocalipse, Guerra, com o sacrifício do Senhor das Sombras. Que ele seja, para sempre, levado de mim.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

War always costs the highest of all prices...

-Então, qual é o seu plano?-perguntou Revés, enquanto íamos até o próximo Cavaleiro.

-Matar todos eles. Um por um.-respondi.

-Simples assim?

-Sim.

Caminhar entre os mundos é interessante. O tempo não passa da mesma forma, pois tudo varia de acordo com a força de vontade de quem perambula pelo Véu. Revés é um dos mais talentosos, poderosos - e insano - magos de minha raça. Eu, por outro lado, sou uma das criaturas mais resilientes que já pôs os pés no Mundo dos Espíritos. O tempo ao nosso redor se distorcia quase que à nossa vontade, e nós sabíamos disso. Cruzamos centenas de quilômetros em questão de minutos, sob os olhares de espíritos menores ou de mercadores de almas. Algumas almas particularmente perturbadas tentaram aproximar-se de nós, mas Revés espantou-as com um mero olhar.

Revés tinha uma fascinação esquisita por almas.

Eu, sinceramente, não.

Foi somente quando nos aproximamos da entrada do Plano onde Guerra estava preso que a paisagem mudou. O deserto tornou-se planície e as almas e espíritos deram lugar aos cadáveres. Milhares deles, espalhados por todo lugar. Inúmeras lanças e espadas partidas estavam no chão, e dizem que muitos ocultistas se aventuram por essas proximidades procurando artefatos, sem jamais sequer desconfiar que estavam próximos a uma das mais poderosas entidades do planeta.

-Então... esse deve ser o plano onde Guerra está preso.-disse Revés.

-Você tem alguma ideia de como eu posso abrir o portal?- perguntei.

-Deixe-me tentar uma coisa...-disse ele.

Percebi uma certa incerteza na voz dele... basicamente, era a única coisa que havia na voz dele.

Revés murmurou algumas palavras e então tirou uma chave de seu bolso. Ele encostou-a na testa... e então quebrou-a.

Um enorme buraco negro se formou, do mais absoluto nada, e irresistivelmente tragou-nos para dentro. Eu tive a sensação de que eu estava sendo engolido por um behemoth gigante que estava sendo predado por um dragão marinho, a mais de onze mil metros de profundidade.

Foi extremamente desagradável.

Quando aquilo tudo terminou, nós estávamos perante o Cavaleiro.

-Senhor das Sombras... que bom vê-lo. Antes que possamos acertar nossas contas, você deve fazer um sacrifício em minha homenagem... sacrifique aquilo que lhe é mais precioso.

Olhei para Revés.

-Foi pra isso que você me trouxe?-disse ele, desconfiado.

-Sim... para que você seja a testemunha de meu próprio sacrifício.-respondi

sexta-feira, 20 de julho de 2012

When the brothers ride together again...

-Como posso saber que você não vai ordenar que suas formigas tentem me morder depois de eu lhe entregar a Lança?-perguntei.

-Porque, ao contrário de você, eu sou honrado.

-Se tem algo que descobri em minha vida, foi que anjos honrados tem dois fins: ou caem, ou morrem. Se você ainda é celestial, é porque põe sua honra abaixo de seu dever. Eu não vou arriscar tanto em nome da sua honra.

Aquilo irritou Gabriel profundamente, mas vi que ele se conteve. Aquilo era um jogo de xadrez com peças capazes de matar umas às outras mais rápido do que seria saudável. Eu estava muito mais poderoso do que eu era quando me deparei com ele pela primeira vez, mas Gabriel tinha a vantagem diplomática de estar com Revés. Um erro dele e eu acharia um jeito de salvar Revés e então chaciná-los. Um erro meu e ele mataria Revés.

-Façamos assim. Você crava a Lança na exata metade do caminho e então eu liberto Revés.-disse Gabriel.

-Se você hesitar, que seja por um segundo... eu juro...

Fiz o que ele disse, percorri metade do caminho e cravei a ponta de lança no chão. Aquilo era exatamente como lidar com os explosivos que os humanos faziam. Um erro, por mais banal que fosse, e estava tudo destruído.  E não iria ser nem um pouco agradável.

Recuei pacientemente, e então ouvi Gabriel dizer alguma coisa na direção de Revés. As correntes se soltaram e então meu irmão esticou as mãos. O anjo caminhou até a Lança e então tirou-a do chão.

-Foi um prazer negociar com você, Orgulho.

-Desapareça.

Gabriel, bem como seu séquito de idiotas, sumiu.

-Orgulho.

-Revés.

Por um momento, rimos. De novo, como já era de costume, o destino nos trazia de volta para o campo de batalha.

-Será que haverá um dia em que finalmente teremos paz, irmão?-perguntei.

-Talvez... mas acho que você não vai aguentar muito tempo sem estragar tudo.-disse ele, ainda rindo.

domingo, 15 de julho de 2012

A trick of Fate, about Misfortune and Destiny

Terminou, mas é uma sensação estranha.

Quase como se eu tivesse perdido uma parte de mim.

A parte que desejava vingança.

Abri minhas asas e então esperei enquanto abria meu portal para fora daquela dimensão tenebrosa. A morte de Peste significava um cavaleiro a menos em meu objetivo, mas eu ainda teria que enfrentar outros três. Fome, Guerra e Morte. Talvez eu devesse começar por Guerra... seria o inimigo mais óbvio.

Meu plano era simples: se eu matasse os Cavaleiros, eu cessaria a sua influência sobre a Terra. Eles surgiram como ferramentas para o fim do mundo, mas seu poder cresceu e eles decidiram tramá-lo. Existem muitas coisas que eu odeio na existência, mas eu quero poder continuar odiando-as. O fim do mundo não era uma perspectiva agradável, e, aparentemente, eram poucos os que sabiam que estávamos nos aproximando dele.

Ouvi um farfalhar de asas tão logo eu voltei para o mundo físico. Sorri.

Anjos. Eu adoro anjos. Especialmente quando mortos.

-O que você fez, Eterno?-perguntou o líder da falange, Gabriel.

-Não é da sua conta, pomba.-respondi.-Desapareça do meu caminho.

-Ah, certamente é da minha conta. Sabe, eu não costumo me irritar com as suas atitudes, Senhor das Sombras. Pelo contrário, acho engraçada a forma como você lida com seus problemas. Você tornou-se uma besta completamente incapaz de prever suas consequências...

-Se eu ouvir mais uma nota em sua voz que me desagrade, terão sido as suas últimas palavras. Eu não preciso ouvir absurdos de uma criatura cuja única função é ser enchimento de travesseiro. Lucifer não me enfrentou: não me faça rir de você.

-Se eu estalar meus dedos, uma falange inteira estará aqui antes de você piscar.

-Se eu estalar os meus, sua falange inteira estará morta antes de pisar no chão.

Ele estalou os dedos. Eu saquei minha arma.

Mas ao invés de uma falange inteira aparecer, somente uma criatura apareceu. Uma criatura corvídea que eu instantaneamente reconheci como meu irmão. Revés. Seus braços estavam presos por uma corrente de aspecto antigo, mas eu sabia o que ela realmente era. As Correntes de Asmodeus só podem ser soltas por quem as prendeu.

-REVÉS!-berrei.-Eu espero que você tenha um plano de escape, porque...

E então apareceu a tal falange. Desgraçado.

-Sim, você talvez consiga me matar e matar todos nós, mas... esses anjos estão dispostos a ignorá-lo para matar Revés. Então, eu sugiro que você pense bem nas suas atitudes.

Olhei ao redor. Eram trinta ou quarenta... talvez levasse uns três minutos. Droga, não é suficiente.

-O que você quer?

-O que mais seria, Senhor das Sombras... nós trocaremos seu irmão pela Lança do Destino.



terça-feira, 10 de julho de 2012

Pandora's Box and the End of the Eternity

-Você não ousaria, Esperança.- vociferei.

-Eu não ousaria? Você enlouqueceu, Orgulho! O que você se tornou?-disse ela.

-EU ERA UM GUERREIRO, ESPERANÇA! A SUA TRAIÇÃO FEZ DE MIM UM ASSASSINO!

-Eu não lhe forcei a nada, Orgulho.

-Mentira. Você me forçou, sim. Você me forçou a matar para viver. Você era quem eu tinha, Esperança, era em você que eu confiava! Mas você optou por se vender para Fanatismo...

-Não ouse falar comigo desse jeito, Senhor das Sombras. Eu já ouvi o suficiente de você.

-Ah, não. Você não ouviu nem metade... Você é a mais podre dentre todos os Eternos, Esperança. Você é a representação de tudo que nós não deveríamos ser... o que você trouxe para a nossa raça?

-E o que VOCÊ trouxe, Orgulho? Morte, destruição?

-Eu trouxe ordem. Eu nos juntei no momento em que era necessário e nos separei quando era o que tinha que ser feito. Eu fiz mais pelos Eternos do que você fez por qualquer entidade nesse planeta. Você nunca deveria ter saído dessa caixa.

-Eu trouxe luz pra esse mundo, Orgulho. Os deuses quiseram que eu fosse liberta.

-Sim, você trouxe luz para o mundo. Mas você sempre se esqueceu que não existem sombras quando não existe a luz. Você pode ter trazido um pouco de luz... mas só o que fez foi trazer à tona as trevas.

Esperança largou a Caixa de Pandora. Ela puxou seu sabre, e minha Lâmina desapareceu da bainha para aparecer em minhas mãos.

-Lutaremos de novo? Você sabe como isso acabou da última vez.

- Dessa vez, será diferente. Aquele que for derrotado, volta para a Caixa. Você concorda?

-Sim.

Esperei Esperança atacar. Não vou correr riscos: cheguei longe demais para jogar limpo contra uma entidade como ela. Ela teve inúmeras chances de se redimir, e tudo que fez foi afundar mais. Era a hora de dar um fim nela.

Tão logo ela me atacou, eu fui em direção à Caixa. Minhas mãos fecharam-se sobre ela e então eu abri a tampa. Proferi o encantamento tão rápido quanto pude, e nunca esquecerei a expressão de Esperança quando ela foi presa de novo:

"Pelo sol que brilha acima de nós
E como guardião do artefato de Elêusis
Eu, Orgulho, declaro que sou
Capaz de desfazer a vontade dos Deuses

Se, no mundo, há de haver a justiça
Que seja, sua arma, a vingança
E por meu poder, sob os olhos do universo,
Declaro aqui o fim da Eterna, Esperança."

Explosão.

Senti o universo tremer aos meus pés e minhas mãos queimaram. O que eu tinha feito era mais do que simplesmente matá-la. A caixa de Pandora era o único artefato conhecido até hoje que era capaz de destruir plenamente um Eterno. Ela foi criada para conter-nos, e os deuses levaram milhares de anos para prender cada um dos Eternos que estiveram naquela caixa. Quando Pandora abriu a caixa, ela os libertou no mundo, e eles queriam vingança. Esperança, no entanto, só foi libertada muito depois... e sua libertação teve consequências que fizeram os Mares do Destino correrem no sentido contrário.

Mas agora não mudava mais nada.

Ela estava destruída.

Para sempre.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cross my Heart... and Hope to Die!


Eu vi civilizações surgirem e desaparecerem quando aquela lâmina fez verter o sangue de uma divindade.

O primeiro, dentre os quatro, tinha me custado muito. Recuperar a Lança do Destino tinha sido arriscado, e eu certamente não teria conseguido sem ela. Ainda não entendo como consegui pegá-la de seu antigo dono...

-Sabe o que é mais engraçado nisso tudo, Peste? Eu conheci inúmeras entidades que nasceram como mortais e se eternizaram como deuses... Mas você é o primeiro que eu vejo nascer eterno... e agora morrer como um simples mortal.

-Ah, Orgulho... A minha morte trará um futuro mais sombrio do que a mais sombria de suas perspectivas.- respondeu o Cavaleiro moribundo.

-Eu bebi a água do Mar do Destino. Eu conheço o futuro.

Ele gargalhou.

-Nossa, nunca pensei em fazer isso. Eu seria imortal se fizesse... você é mais tolo do que parecia, Orgulho. Você matou uma divindade, uma entidade que faz parte do equilíbrio desse mundo... e a partir de agora, você colherá o que está semeando.

-Suas ameaças são vazias, Peste.

-Não... vazias são as suas esperanças.

Desgraçado. Esperança, como eu pude esquecer dela?

-E por falar nela...-riu Peste.

-Eu já vi você fazer coisas idiotas, Orgulho... mas talvez eu não tenha usado força o suficiente.-disse Esperança.

Matar Peste utilizando a arma mais poderosa que existe foi difícil. Está certo... eu absorvi Lil'Siztah e tenho praticamente os poderes de uma divindade. Mas eu nunca gostei de enfrentar Esperança.

-Você ousa me enfrentar, mesmo sabendo que o poder de um deus agora me pertence?

E foi somente quando eu olhei para Esperança que entendi o quão ferrado eu estava... nas mãos dela, não tinha arma nenhuma. Ela não estava ali para me matar.

Nas mãos dela, somente um pequeno baú.
No rosto, um largo sorriso.

A Caixa de Pandora... diabos, como eu esqueci disso?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Warrior's Pride

Eu não sei COMO e nem QUEM fez isso, mas, de alguma forma, eu fui capturado.

Eu pensei em me destruir, confesso. Realmente pensei... até perceber que não mudaria nada. Eu li aqueles selos, cada um dos malditos milhares que colocaram na minha maldita "prisão". Eu não sei quem teria acesso à magia tão antiga a não ser Revés. Mas eu sei que não foi Revés quem fez isso, pelo menos não voluntariamente. Eu vou achar o infeliz que fez isso. E vou condenar ele pra toda a eternidade. Eu não tenho dúvidas disso.

Mas, antes, eu quero entender o que foi isso.

Uma entidade vestida com um manto caminha em minha direção. É um humano. Isso é inacreditável. Eu tenho milhares de anos de idade e ainda assim esse desgraçado me prendeu.

-Orgulho.- diz ele.

-Você mexeu com o Eterno errado.-respondi.

-Certamente, não. Teriam outros muito piores. Mas eu não pretendo mantê-lo preso para sempre.

-Você não conseguiria. Eu vou sair daqui.

-Não, não vai. Eu estudei esses selos durante centenas de anos. Você está preso.

-Centenas?

-Sim, centenas. Eu fui humano um dia: hoje sou muito mais que isso. Mas, Orgulho, o motivo pelo qual eu fui atrás de você é porque você me fascina. É um excelente combatente. Eu quero testar isso.

-O que diabos...

-Uma arena. Gladiadores. Você e outras entidades de igual poder. É pra isso que você está aqui. E é só assim que você vai sair.

Não gostei da ideia.

Realmente não gostei da ideia.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Tomo Desconhecido de Fúria: "Under the ice we will be free..."

E então, estavam todos os Eternos reunidos pela primeira vez em sei lá eu quanto tempo. Seria um momento emocionante... se nós gostássemos uns dos outros.

Orgulho estava no centro de todos, cercado por mim, por Revés, Mágoa e Conhecimento. Aquele círculo também marcava a confiança: de fora dele, não confiávamos em ninguém. Mas era necessário tê-los ao nosso lado, então Orgulho não tinha opção.

-Meus irmãos. Tenho noção de que muitos de vocês tentaram recusar essa invocação, pois sei que me odeiam ou me temem. Mas Revés é um grande mago e forçou-os a vir. E é porque tem algo que vocês precisam saber.-começou Orgulho.

-Eu matei o Matador de Gigantes. E esse é o martelo dele.-disse ele, erguendo a arma.

Inúmeras expressões. Pânico, admiração, desespero. Essas são apenas algumas delas, mas houve um consenso geral: surpresa.

-A morte do Matador de Gigantes serve como prova para o que eu direi a seguir. Existem algumas entidades que nós consideramos imortais, mas elas podem ser mortas. Anjos e demônios, esses nós sabemos que podemos matar. E, no entanto, eles nos trancaram aqui. E ficaram com ambos os mundos. O mundo espiritual é uma prisão perpétua na qual nós não tentamos fugir. E é isso que eu lhes proponho: vamos quebrar as correntes que nos prendem aqui.

Mais surpresa.

-Céu e Inferno não são os nossos inimigos. Não, talvez até pelo contrário: talvez eles nos ajudem. Nossa guerra será contra os Quatro Cavaleiros. Aqueles de vocês que querem lutar pela sua própria liberdade contra as criaturas que nos forçam a ficar nesse mundo, estejam aqui quando o primeiro raio do sol tocar o chão desse deserto. O resto de vocês...não me interessa.

domingo, 16 de outubro de 2011

Secrets of an Old Tale III: Bloodline

(Sem relação com o Tomo Desconhecido de Fúria... esse trecho se passa muito antes)

Confesso que senti muita dor quando todo aquele redemoinho de poder colidiu comigo. Eu já tinha lutado muito, mas nada se comparava àquela entidade. Malditas criaturas sobrenaturais, elas conseguiam avacalhar com todas as possíveis regras que alguém pudesse criar.

-Ah Orgulho... você me devia uma, não? Então agora pague!

Desgraçado. Eu vi uma lança cruzar o céu mais rápido do que a própria luz. E, logicamente, doeu como o inferno quando ela me acertou. Rolei no chão, agonizando, enquanto a maldita entidade parou ao meu lado.

-Isso ainda não está terminado, meu caro. Eu ainda vou ter sua cabeça. É bom você se preparar, Desgraça.

Ele riu.

-O que você pode fazer contra mim, Orgulho? Você está imerso em minhas ilusões... afogado em meu próprio poder. Que tipo de magia poderia retirá-lo disso?

Magia. Agora estava óbvio... Confesso que, por um momento, tive medo. Mas tinha alguém que estava pronto para me defender... e eu talvez tivesse esquecido disso.

-Você acha que nenhum poder me tiraria de suas garras?-perguntei, com uma nota de sarcasmo na voz. Tentei me levantar, mas sem sucesso -Poupe-me de sua arrogância, verme.

-Eu, arrogante? O que poderia livrá-lo de mim?

Uma tempestade de proporções míticas formou-se no céu. E então choveram os raios. Milhares deles, todos no mesmo ponto. Todos em meu adversário. Quanto azar, não?

Não. Não foi azar.

E ele desceu, então. As asas despenadas abertas, um velho estandarte para mim. Não importa o quão difíceis ficassem as coisas... quando aquelas asas apareciam, elas estavam resolvidas.

-Você está um bagaço, Orgulho. Eu deveria matá-lo pra manter a memória que eu tinha de você imaculada por este momento.

-Não fale isso, meu irmão. Não importa quanto eu sofra... eu sempre estou pronto para a próxima batalha.

Aqueles raios não foram guiados pelo azar.
Foram guiados pelo Revés.

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Uma homenagem ao meu irmão de sangue, do qual posso estar distante agora, mas cujas asas sempre serão, para mim, um sinal de que a luta ainda não acabou.