-Inferno.-disse eu.
Conhecimento sorriu.
-Onde mais estaria o Orgulho se não nas terras de Lucifer, seu ícone?-disse ele.
Um grito de agonia ecoou de algum lugar. Anunciava a chegada de Mágoa.
-Orgulho.-disse ele.-O que aconteceu com você? Você está... diferente...
-Eu estou incompleto, Mágoa, e sei que é por isso que vieste. É uma honra poder contar com tua ajuda.-respondi.-Estamos indo para o Inferno. Acho que vais querer carona.
-Certamente.-disse ele.
Cravei minha Lâmina no chão e sussurrei algumas palavras. Ihr aven sehrk moarath. "Abram, portas do submundo".
Um enorme buraco abriu-se e nós todos caímos. Por alguns segundos, estivemos em queda livre, mas todos voávamos, então conseguimos estabilizar a queda. Um enorme rio fluía abaixo de nós. Nenhum mortal conseguiria atravessá-lo sem a ajuda do barqueiro, mas ignoramos aquilo. Seguimos voando, indiferentes.
Não demorou muito para que víssemos a margem oposta. Terras desoladas, algumas almas desesperadas atirando-se no rio. Nunca atravessariam, seriam devoradas pelas bestas do Aqueronte. Nossa presença desesperou alguns deles, outros ajoelharam-se como se pensassem que éramos anjos. Ignoramos. O Inferno era um lugar que nem mesmo nós gostávamos de visitar.
Senti Orgulho próximo. Ele sentiu-me, também, e estava tentando romper o vínculo que existia entre nós. Ele sabia que eu estava vindo até ele. Senti Desespero também. E vi que eles estavam em frente aos portões gigantescos do Inferno. Mas Orgulho lembrava das palavras de Lucifer. Ele estava proibido de entrar lá.
Eu, no entanto, não estava. Afinal, Lucifer proibiu apenas o Orgulho de adentrar o Inferno.
Aproximamos-nos deles.
-Você veio, Senhor das Sombras. Acho que é hora de dar um jeito em você.-disse Desespero.
-Deixe-me apresentá-lo ao meu aliado, Desespero. Ele chama-se Conhecimento... talvez você já tenha ouvido falar dele.-disse eu, sarcasticamente.
Conhecimento avançou na direção dele. Senti um tom de pânico no rosto de Desespero. Nenhum Eterno tinha conseguido vencer Conhecimento.
Meus olhos voltaram-se para Orgulho. Fúria moveu-se até os portões e bloqueou-o. Mágoa olhou para mim.
-Você consegue pegá-lo sozinho.-disse ele.
-Consigo, mas preciso que você mantenha os Cérberos afastados.-respondi.
Investi, de Lâmina em punho, contra minha antiga contraparte. Ele tinha forjado uma lâmina nova. É a primeira coisa que um Eterno faz quando perde sua arma definitivamente. A luta seguiu-se encarniçada, com sangue voando para todos os lados. Ouvi Desespero gritar. Conhecimento tinha vencido.
Com um golpe forte em sua mão, fiz Orgulho soltar a Lâmina e então segurei-o pelo pescoço. Impiedosamente, cortei seus dois braços. O ferimento iria demorar para fechar.
-Idiota, você não é mais o que você era, Senhor das Sombras. Perdeu seu poder para mim ao longo dessa eternidade em que você foi apenas uma vozinha insuportável no fundo de minha cabeça. É hora de voltar a ser o que era antes.
Minha mão enterrou-se no peito dele e então arranquei sua essência. A seguir, depositei-a em minha lâmina e atravessei minha fiel arma em meu peito. Um jorro intenso de luz emanou de mim enquanto eu sentia meu poder voltar. Quando tudo terminou, eu estava caído, de joelhos, vestindo minha velha armadura.
-Você está bem, Senhor das Sombras?-perguntou-me Mágoa.
Olhei para ele.
-Daqui em diante, chamem-me apenas de Orgulho.
"Acho que a Foice como instrumento da morte dá à vida uma idéia de colheita: você nasce, você cresce e então você é brutalmente eviscerado por uma entidade maior e com armas mais violentas que as suas..." - Dark Harlequin
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domingo, 18 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Shadowlord (Series Finale, Parte 2)
Eu, Fúria e Revés seguimos o caminho até o templo onde habitava meu trunfo nessa luta.
A indiscreta visão de uma montanha voando chocou a todos. Seguimos, indiferentes. Era esse o efeito que eu queria para aquela cena. Algo épico, fantástico.
Encontrei meu aliado sentado, ao lado de uma conhecida moça que, ao me ver, desapareceu.
-Você espantou minha companhia, Orgulho. Posso chamá-lo assim, ainda que não mais o sejas?-perguntou ele.
-Pode. Mas eu não espantei ninguém. A Felicidade nunca gostou de estar próxima a mim.-respondi e então ajoelhei-me. Ele sabia o quanto aquilo significava para mim, mas ele é a única entidade que reconheço como superior.
-Erga-te, Orgulho. Não gosto que faças isso.-disse ele.
-Permita-me, Conhecimento. Preciso de vossa ajuda.-respondi.-Parte de mim foi arrancada e somente vós podeis enfrentar o Desespero que a cerca. Peço que o faças, em nome de nossa antiga amizade.
Ele caminhou até mim.
-Tu podes sentir onde está a outra parte de ti, Orgulho. Recuso-me a chamar-te por tua atual alcunha, pois sei quem ainda és e nunca deixaste de ser. Agora concentra-te. Encontre a ti mesmo e então ajudar-te-ei a enfrentar Desespero.
Fechei meus olhos. Concentrei-me.
As seguintes palavras ecoaram em minha mente.
"Vai-se por mim à cidade dolente
Vai-se por mim à eterna dor
Vai-se por mim entre a perdida gente
A Justiça moveu meu alto feitor
Cumpriram-me poderes divinais
A suma sapiência, o primo amor
Antes de mim, não foi criado jamais
o que não fosse eterno - e eterno eu perduro
Deixai toda a esperança, vós que entrais"
Um sorriso cínico correu meus lábios.
De volta para o Inferno.
A indiscreta visão de uma montanha voando chocou a todos. Seguimos, indiferentes. Era esse o efeito que eu queria para aquela cena. Algo épico, fantástico.
Encontrei meu aliado sentado, ao lado de uma conhecida moça que, ao me ver, desapareceu.
-Você espantou minha companhia, Orgulho. Posso chamá-lo assim, ainda que não mais o sejas?-perguntou ele.
-Pode. Mas eu não espantei ninguém. A Felicidade nunca gostou de estar próxima a mim.-respondi e então ajoelhei-me. Ele sabia o quanto aquilo significava para mim, mas ele é a única entidade que reconheço como superior.
-Erga-te, Orgulho. Não gosto que faças isso.-disse ele.
-Permita-me, Conhecimento. Preciso de vossa ajuda.-respondi.-Parte de mim foi arrancada e somente vós podeis enfrentar o Desespero que a cerca. Peço que o faças, em nome de nossa antiga amizade.
Ele caminhou até mim.
-Tu podes sentir onde está a outra parte de ti, Orgulho. Recuso-me a chamar-te por tua atual alcunha, pois sei quem ainda és e nunca deixaste de ser. Agora concentra-te. Encontre a ti mesmo e então ajudar-te-ei a enfrentar Desespero.
Fechei meus olhos. Concentrei-me.
As seguintes palavras ecoaram em minha mente.
"Vai-se por mim à cidade dolente
Vai-se por mim à eterna dor
Vai-se por mim entre a perdida gente
A Justiça moveu meu alto feitor
Cumpriram-me poderes divinais
A suma sapiência, o primo amor
Antes de mim, não foi criado jamais
o que não fosse eterno - e eterno eu perduro
Deixai toda a esperança, vós que entrais"
Um sorriso cínico correu meus lábios.
De volta para o Inferno.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Shadowlord (Series Finale, Parte 1)
(As próximas postagens marcarão o fim dessa série, Shadowlord)
Ergui-me. Ouvi um farfalhar de asas e então fui golpeado. Minha Lâmina voou de minha mão.
Revés.
-Você sentiu, não sentiu?-perguntei.
-Sim.-respondeu ele.
-Para bem ou para mal, preciso recuperar aquela parte de mim. Independente do meu futuro. E, para isso, vou precisar de alguém forte. Alguém que luta ao meu lado há tanto quanto você, meu irmão. Eu vou precisar de Fúria. E de alguém capaz de enfrentar Desespero.
Sorri. Eu sabia quem era esse alguém.
Minhas asas abriram-se. Eram pequenas, fracas. Por um momento, senti-me ofendido. Onde estava a imponência de outrora? Estava perdida. Peguei minha Lâmina que estava no chão e então bati as asas.
Voei durante muito tempo. Cada segundo era um passo em direção ao abismo. Desespero e Orgulho estavam juntos, eu sabia. Eles queriam certificar-se de que eu não iria recuperar meu aspecto. O Tempo era meu inimigo. Faltava tempo, faltava tudo. Era simplesmente impossível manter aquela situação.
E então avistei a caverna onde habitava Fúria. No topo das montanhas, onde ninguém poderia perturbá-lo. Era a hora de pedir seu apoio.
-Revés, fique por aqui. Não importa o que aconteça, não entre lá. Fúria me conhece, mas não gosta de estranhos, mesmo quando acompanhados por mim.-disse eu.
-Certo, meu irmão.-respondeu ele.
E então voei até a caverna. Estava guardada por homens armados.
-Quem é você, Eterno? O que fazes aqui?-disseram eles.
-Não nos exaltemos...-disse eu.
As sombras da caverna formaram uma onda massiva e então atiraram aqueles homens de cima da montanha.
-Idiotas...-disse eu.
-Orgulho?-ouvi uma voz grave.
-Mais ou menos, meu bravo amigo. Preciso de sua ajuda. Desespero separou-me de minha contraparte. Preciso pegá-la de volta.
A montanha se mexeu.
-Conte comigo.-disse a montanha, abrindo as asas.
Sorri. Agora só faltava um.
Ergui-me. Ouvi um farfalhar de asas e então fui golpeado. Minha Lâmina voou de minha mão.
Revés.
-Você sentiu, não sentiu?-perguntei.
-Sim.-respondeu ele.
-Para bem ou para mal, preciso recuperar aquela parte de mim. Independente do meu futuro. E, para isso, vou precisar de alguém forte. Alguém que luta ao meu lado há tanto quanto você, meu irmão. Eu vou precisar de Fúria. E de alguém capaz de enfrentar Desespero.
Sorri. Eu sabia quem era esse alguém.
Minhas asas abriram-se. Eram pequenas, fracas. Por um momento, senti-me ofendido. Onde estava a imponência de outrora? Estava perdida. Peguei minha Lâmina que estava no chão e então bati as asas.
Voei durante muito tempo. Cada segundo era um passo em direção ao abismo. Desespero e Orgulho estavam juntos, eu sabia. Eles queriam certificar-se de que eu não iria recuperar meu aspecto. O Tempo era meu inimigo. Faltava tempo, faltava tudo. Era simplesmente impossível manter aquela situação.
E então avistei a caverna onde habitava Fúria. No topo das montanhas, onde ninguém poderia perturbá-lo. Era a hora de pedir seu apoio.
-Revés, fique por aqui. Não importa o que aconteça, não entre lá. Fúria me conhece, mas não gosta de estranhos, mesmo quando acompanhados por mim.-disse eu.
-Certo, meu irmão.-respondeu ele.
E então voei até a caverna. Estava guardada por homens armados.
-Quem é você, Eterno? O que fazes aqui?-disseram eles.
-Não nos exaltemos...-disse eu.
As sombras da caverna formaram uma onda massiva e então atiraram aqueles homens de cima da montanha.
-Idiotas...-disse eu.
-Orgulho?-ouvi uma voz grave.
-Mais ou menos, meu bravo amigo. Preciso de sua ajuda. Desespero separou-me de minha contraparte. Preciso pegá-la de volta.
A montanha se mexeu.
-Conte comigo.-disse a montanha, abrindo as asas.
Sorri. Agora só faltava um.
terça-feira, 13 de julho de 2010
Shadowlord (Interlúdio Pré-Series Finale)
Encarei a areia.
Parte de mim era Orgulho. Parte de mim, Senhor das Sombras. E no entanto, nesse momento, eu era somente o Senhor das Sombras. Contemplei minha Lâmina.
Era do Orgulho. Diabos, quem sou eu agora?
Sou eu o Orgulho de outrora ou as Sombras do presente? Eu sou quem lutou a Grande Guerra na qual metade de nós fomos condenados ou eu sou aquele que absorveu o aspecto do vencido Senhor das Sombras e fez seu nome inspirar o temor que ele inspira hoje?
A minha aparência diz quem eu sou? Sou eu aquela velha armadura sem elmo com cabelos esvoaçantes ao vento ou a capa de sombras e escuridão que envolve completamente meu corpo e revela apenas meus olhos? Meu corpo todo, minhas capacidades... elas todas são do Senhor das Sombras. Mas minha Lâmina, parte de mim e de minha alma, ela é do Orgulho.
Não consigo responder. Falta alguma coisa em mim para responder.
Falta o Orgulho. E eu vou pegá-lo de volta.
Parte de mim era Orgulho. Parte de mim, Senhor das Sombras. E no entanto, nesse momento, eu era somente o Senhor das Sombras. Contemplei minha Lâmina.
Era do Orgulho. Diabos, quem sou eu agora?
Sou eu o Orgulho de outrora ou as Sombras do presente? Eu sou quem lutou a Grande Guerra na qual metade de nós fomos condenados ou eu sou aquele que absorveu o aspecto do vencido Senhor das Sombras e fez seu nome inspirar o temor que ele inspira hoje?
A minha aparência diz quem eu sou? Sou eu aquela velha armadura sem elmo com cabelos esvoaçantes ao vento ou a capa de sombras e escuridão que envolve completamente meu corpo e revela apenas meus olhos? Meu corpo todo, minhas capacidades... elas todas são do Senhor das Sombras. Mas minha Lâmina, parte de mim e de minha alma, ela é do Orgulho.
Não consigo responder. Falta alguma coisa em mim para responder.
Falta o Orgulho. E eu vou pegá-lo de volta.
domingo, 11 de julho de 2010
Shadowlord
Os corpos estavam espalhados pelo chão. Milhões deles.
Meu olhar percorreu aquela sombria carnificina, enquanto meus ferimentos cicatrizavam lentamente. Minha Lâmina Eterna, a parte de mim responsável por enfrentar meus inimigos, estava saciada. Era hora de continuar meu caminho.
No entanto, algo chamou minha atenção. Uma daquelas criaturas era diferente das outras. Eu não tinha notado isso durante a batalha, mas agora eu via com clareza. Ela era um Eterno.
Como um de nós poderia estar lutando ao lado daquelas criaturas? Eu não conseguia reconhecê-lo a essa distância. Por um momento, temi: talvez fosse alguém mais poderoso que eu. Confiei nas minhas capacidades e segui em frente.
Erro que talvez eu não vá viver para me arrepender.
Desespero agarrou-me pelo pescoço. Desgraçado. Minha Lâmina voou para longe enquanto eu me debatia futilmente tentando livrar-me daquelas garras amaldiçoadas. O rosto perturbado deu um sorriso.
-Orgulho.-disse ele.-Não me admira que não tenhas me reconhecido. Sua arrogância lhe cega.
Ele sacou sua própria lâmina.
-Termine com isso, Desespero. Vingue sua amada Esperança, pois eu matei-a de novo.
Por um momento, eu vi a ira queimá-lo por dentro. Desespero e Esperança sempre dependeram um do outro.
-Não vou matá-lo. Vou fazer pior.-disse ele.
E então eu vi um tentáculo apanhar minha Lâmina ao longe. Me debati enfurecidamente. Eu sabia o que ele iria fazer. Não poderia deixar. Lutei com todas as minhas forças, mas o Desespero é um dos mais poderosos dentre nós. Minha luta foi em vão.
E então eu senti a ponta etérea de minha própria Lâmina atravessar minhas vísceras. Senti parte de meu poder fluindo para dentro dela, enquanto o corpo que eu habitava foi ficando cada vez mais vazio. E então, eu estava completamente contido dentro daquela lâmina. Ele atirou a espada no chão.
-Erga-se Orgulho. E você também, Senhor das Sombras.
E foi com espanto que eu me vi não mais como o Orgulho, mas como o Senhor das Sombras. Por tanto tempo foi essa minha alcunha que entrelacei-me mais a esse aspecto do que ao meu aspecto de origem. Contemplei o Orgulho: aquela minha velha armadura. Era uma questão de honra, eu iria pegá-la de volta.
Com um sorriso de desprezo, o atual Orgulho desapareceu de minha frente.
-Até mais, Orgulho... ou devo chamá-lo de Senhor das Sombras?-disse Desespero, com um sorriso.-E tente enfrentar minha irmã, Esperança, agora.
Maldito seja ele.
Maldito seja.
Maldito.
Meu olhar percorreu aquela sombria carnificina, enquanto meus ferimentos cicatrizavam lentamente. Minha Lâmina Eterna, a parte de mim responsável por enfrentar meus inimigos, estava saciada. Era hora de continuar meu caminho.
No entanto, algo chamou minha atenção. Uma daquelas criaturas era diferente das outras. Eu não tinha notado isso durante a batalha, mas agora eu via com clareza. Ela era um Eterno.
Como um de nós poderia estar lutando ao lado daquelas criaturas? Eu não conseguia reconhecê-lo a essa distância. Por um momento, temi: talvez fosse alguém mais poderoso que eu. Confiei nas minhas capacidades e segui em frente.
Erro que talvez eu não vá viver para me arrepender.
Desespero agarrou-me pelo pescoço. Desgraçado. Minha Lâmina voou para longe enquanto eu me debatia futilmente tentando livrar-me daquelas garras amaldiçoadas. O rosto perturbado deu um sorriso.
-Orgulho.-disse ele.-Não me admira que não tenhas me reconhecido. Sua arrogância lhe cega.
Ele sacou sua própria lâmina.
-Termine com isso, Desespero. Vingue sua amada Esperança, pois eu matei-a de novo.
Por um momento, eu vi a ira queimá-lo por dentro. Desespero e Esperança sempre dependeram um do outro.
-Não vou matá-lo. Vou fazer pior.-disse ele.
E então eu vi um tentáculo apanhar minha Lâmina ao longe. Me debati enfurecidamente. Eu sabia o que ele iria fazer. Não poderia deixar. Lutei com todas as minhas forças, mas o Desespero é um dos mais poderosos dentre nós. Minha luta foi em vão.
E então eu senti a ponta etérea de minha própria Lâmina atravessar minhas vísceras. Senti parte de meu poder fluindo para dentro dela, enquanto o corpo que eu habitava foi ficando cada vez mais vazio. E então, eu estava completamente contido dentro daquela lâmina. Ele atirou a espada no chão.
-Erga-se Orgulho. E você também, Senhor das Sombras.
E foi com espanto que eu me vi não mais como o Orgulho, mas como o Senhor das Sombras. Por tanto tempo foi essa minha alcunha que entrelacei-me mais a esse aspecto do que ao meu aspecto de origem. Contemplei o Orgulho: aquela minha velha armadura. Era uma questão de honra, eu iria pegá-la de volta.
Com um sorriso de desprezo, o atual Orgulho desapareceu de minha frente.
-Até mais, Orgulho... ou devo chamá-lo de Senhor das Sombras?-disse Desespero, com um sorriso.-E tente enfrentar minha irmã, Esperança, agora.
Maldito seja ele.
Maldito seja.
Maldito.
sábado, 10 de julho de 2010
Shadowlord
Mágoa estava desesperado e distante.
Revés estava se recuperando.
Esperança morreu.
E eu me vi cercado. Aquelas malditas criaturas. Eu estava em outro plano, muito maior que a Terra. Saquei minha lâmina. Desgraçados. Vou fazer com que eles paguem. Por um momento, aquilo me parecia o fim. Sozinho, como sempre estamos no fim das contas. Tenho aliados com os quais posso contar, mas nem sempre eles estão em condições de me ajudar. Minhas asas abriram-se, como um alerta para aqueles que ousassem avançar. Posso não ser a Morte em si, mas certamente quem permanecer em meu caminho há de encontrá-la.
As sombras ao meu redor solidificaram-se e formaram uma armadura. Há milhões de anos, a mesma armadura se formava antes de minhas batalhas. O peitoral tinha meu símbolo inscrito e em relevo. As ombreiras sustentavam uma longa capa, também feita de sombras. O cinturão tinha a face de um lobo de perfil. O elmo era ausente: não quero que meus inimigos esqueçam a face de seu nêmesis.
A boa e velha armadura.
O bom e velho Orgulho, com um toque de sombras.
Quando a primeira daquelas bestas avançou em minha direção, um sorriso formou-se em meu rosto.
Eu estava em um lugar pior que o Inferno. E era hora de abrir a golpes de espada o meu caminho de volta.
Revés estava se recuperando.
Esperança morreu.
E eu me vi cercado. Aquelas malditas criaturas. Eu estava em outro plano, muito maior que a Terra. Saquei minha lâmina. Desgraçados. Vou fazer com que eles paguem. Por um momento, aquilo me parecia o fim. Sozinho, como sempre estamos no fim das contas. Tenho aliados com os quais posso contar, mas nem sempre eles estão em condições de me ajudar. Minhas asas abriram-se, como um alerta para aqueles que ousassem avançar. Posso não ser a Morte em si, mas certamente quem permanecer em meu caminho há de encontrá-la.
As sombras ao meu redor solidificaram-se e formaram uma armadura. Há milhões de anos, a mesma armadura se formava antes de minhas batalhas. O peitoral tinha meu símbolo inscrito e em relevo. As ombreiras sustentavam uma longa capa, também feita de sombras. O cinturão tinha a face de um lobo de perfil. O elmo era ausente: não quero que meus inimigos esqueçam a face de seu nêmesis.
A boa e velha armadura.
O bom e velho Orgulho, com um toque de sombras.
Quando a primeira daquelas bestas avançou em minha direção, um sorriso formou-se em meu rosto.
Eu estava em um lugar pior que o Inferno. E era hora de abrir a golpes de espada o meu caminho de volta.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Shadowlord (Interlúdio)
Ao voltar para a caverna, encontrei Revés já recuperado.
-Aqui está, meu irmão... vossa lâmina.-e atirei a arma para ele.
Revés pegou-a.
-Não consigo acreditar que a derrotaste de novo.-disse Revés.-Você me surpreende algumas vezes.
Sorriso besta no rosto. Não tinha vencido a guerra. Nunca venceria, mesmo que eu vencesse todas as batalhas. Esperança pode estar enfraquecida, mas ela nunca finda. E, enquanto isso, o resto da Legião ainda me preocupava. Minhas notícias deles eram escassas. Fora isso, eu sentia que algo ameaçava, embora não pudesse notar direito o que era. A aparição de Pureza era inesperada, bem como a de Esperança. Algo estava errado. Muito errado.
E era hora de começar a investigar.
-Aqui está, meu irmão... vossa lâmina.-e atirei a arma para ele.
Revés pegou-a.
-Não consigo acreditar que a derrotaste de novo.-disse Revés.-Você me surpreende algumas vezes.
Sorriso besta no rosto. Não tinha vencido a guerra. Nunca venceria, mesmo que eu vencesse todas as batalhas. Esperança pode estar enfraquecida, mas ela nunca finda. E, enquanto isso, o resto da Legião ainda me preocupava. Minhas notícias deles eram escassas. Fora isso, eu sentia que algo ameaçava, embora não pudesse notar direito o que era. A aparição de Pureza era inesperada, bem como a de Esperança. Algo estava errado. Muito errado.
E era hora de começar a investigar.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Shadowlord
-Senti seu aspecto enfraquecendo. Vim ajudá-lo, mas cheguei tarde.-respondeu ela.
As árvores saíam de cima de meu corpo e eu me sentia recarregado. Os cortes fechavam-se conforme eu ia me levantando, mas as cicatrizes ficavam.
As marcas sempre ficam.
-Ainda não entendo porque você faz isso, Senhor das Sombras.-disse ela, com uma voz de violino.- O que tanto você tem contra a Esperança?
-Tudo que eu poderia ter contra alguém desprezível como ela.-disse eu, guardando a lâmina de Revés.-Consegui de volta o que eu queria.
-Você subestima a força dos outros aspectos, Senhor das Sombras. Não existem somente sombras no mundo.
Olhei fundo para os olhos dela. Eles brilhavam com inocência.
-Pureza, o que vossos olhos não veem é a sombras que são reveladas na noite, sob o brilho das estrelas. A luz que emana de ti apaga os tons de cinza e reflete de forma diferente nas diferentes coisas, mas a verdade é que o mundo é em preto e branco. E, portanto, é feito de diferentes tonalidades de cinza. As cores são uma forma apenas de tornar menos desagradável o que existe ao nosso redor.
Ela me encarou, com uma nítida confusão no olhar.
-Como você pode aguentar sua existência?-perguntou ela.
-Eu não aguento, mas não tenho outra opção. Alguns Eternos precisam de mim.-disse eu.-E nesse momento, Revés é um deles.
As árvores saíam de cima de meu corpo e eu me sentia recarregado. Os cortes fechavam-se conforme eu ia me levantando, mas as cicatrizes ficavam.
As marcas sempre ficam.
-Ainda não entendo porque você faz isso, Senhor das Sombras.-disse ela, com uma voz de violino.- O que tanto você tem contra a Esperança?
-Tudo que eu poderia ter contra alguém desprezível como ela.-disse eu, guardando a lâmina de Revés.-Consegui de volta o que eu queria.
-Você subestima a força dos outros aspectos, Senhor das Sombras. Não existem somente sombras no mundo.
Olhei fundo para os olhos dela. Eles brilhavam com inocência.
-Pureza, o que vossos olhos não veem é a sombras que são reveladas na noite, sob o brilho das estrelas. A luz que emana de ti apaga os tons de cinza e reflete de forma diferente nas diferentes coisas, mas a verdade é que o mundo é em preto e branco. E, portanto, é feito de diferentes tonalidades de cinza. As cores são uma forma apenas de tornar menos desagradável o que existe ao nosso redor.
Ela me encarou, com uma nítida confusão no olhar.
-Como você pode aguentar sua existência?-perguntou ela.
-Eu não aguento, mas não tenho outra opção. Alguns Eternos precisam de mim.-disse eu.-E nesse momento, Revés é um deles.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Shadowlord
A batalha encarniçada tinha começado, uma batalha que eu não sabia se venceria.
Atacávamos um ao outro como lobos, ursos, serpentes e qualquer outra fera da Terra. Nossas Lâminas Eternas ansiavam pelo sangue. Essa era a única mácula das armas dos Eternos.
Elas sempre ansiavam pela batalha.
A lâmina da Esperança era em forma de sabre, mais afiado do que qualquer coisa, pois quando a esperança toca em algo, ela arrebata. O simples toque de sua arma seria capaz de me derrubar. Mas ignoro isso. Acumulei raiva e desprezo por ela durante toda a existência do universo. E agora ela ousava mexer com um de meus irmãos.
Minha lâmina é irregular, como se a fosse a sombra bruxuleante criada pela luz de uma vela. Era afiadíssima, também, porque as sombras conquistam tudo em que encostam.
-Você é estúpido, Orgulho. Eu serei a última a morrer dentre os Eternos. Você sabe que eu existo enquanto meu aspecto existir.
Fiquei quieto. Eu estava encharcado em sangue, destruído. Mas ainda não derrotado.
Ataquei com toda a fúria que eu tinha guardado.
-Então quero vê-la daqui mil anos, sua idiota. Ninguém precisa de você enquanto o Orgulho puder mantê-lo caminhando.-disse eu, com a Lâmina atravessando o coração dela.
A Morte de um Eterno abala as fundações do Universo. Um jorro de luz seguido de uma onda de choque emanou do cadáver da Esperança. O parque de sequoias gigantes desabou sobre mim.
Faltava força para arrancar as árvores de cima de mim. Eu sentia que a Esperança estava certa: ela ainda não estava morta. Mas pensaria duas vezes antes de aparecer de novo. A Lâmina de Revés estava em minha mão esquerda. Mas não mudaria nada.
Ouvi árvores sendo atiradas longe e o peso sobre mim diminuiu.
Um rosto conhecido apareceu dentre as copas misturadas das árvores.
-Pureza... achei que tivesse me esquecido.
Atacávamos um ao outro como lobos, ursos, serpentes e qualquer outra fera da Terra. Nossas Lâminas Eternas ansiavam pelo sangue. Essa era a única mácula das armas dos Eternos.
Elas sempre ansiavam pela batalha.
A lâmina da Esperança era em forma de sabre, mais afiado do que qualquer coisa, pois quando a esperança toca em algo, ela arrebata. O simples toque de sua arma seria capaz de me derrubar. Mas ignoro isso. Acumulei raiva e desprezo por ela durante toda a existência do universo. E agora ela ousava mexer com um de meus irmãos.
Minha lâmina é irregular, como se a fosse a sombra bruxuleante criada pela luz de uma vela. Era afiadíssima, também, porque as sombras conquistam tudo em que encostam.
-Você é estúpido, Orgulho. Eu serei a última a morrer dentre os Eternos. Você sabe que eu existo enquanto meu aspecto existir.
Fiquei quieto. Eu estava encharcado em sangue, destruído. Mas ainda não derrotado.
Ataquei com toda a fúria que eu tinha guardado.
-Então quero vê-la daqui mil anos, sua idiota. Ninguém precisa de você enquanto o Orgulho puder mantê-lo caminhando.-disse eu, com a Lâmina atravessando o coração dela.
A Morte de um Eterno abala as fundações do Universo. Um jorro de luz seguido de uma onda de choque emanou do cadáver da Esperança. O parque de sequoias gigantes desabou sobre mim.
Faltava força para arrancar as árvores de cima de mim. Eu sentia que a Esperança estava certa: ela ainda não estava morta. Mas pensaria duas vezes antes de aparecer de novo. A Lâmina de Revés estava em minha mão esquerda. Mas não mudaria nada.
Ouvi árvores sendo atiradas longe e o peso sobre mim diminuiu.
Um rosto conhecido apareceu dentre as copas misturadas das árvores.
-Pureza... achei que tivesse me esquecido.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Shadowlord
-Esperança.- deu pra sentir o desprezo em minha voz. -Você tem algo que pertence a meu irmão.
-Você não acha que deveria ser menos hostil comigo... um mínimo de respeito depois de ter tentado me matar.-disse a garota.
-Eu não tentei. Eu consegui.-respondi.
-E no entanto, cá estou eu.-disse ela.
-Os humanos costumam dizer que "vasos ruins não quebram".
Ela me olhou com esgar. Um toque de ira surgiu em seus olhos claros, avermelhando-os por um instante.
-Eu não entendo o que eu fiz contra você. Todos os outros me adoram, me idolatram. Rezam para os anjos para que eu apareça diante deles. E você, no entanto, convoca aos Cavaleiros para que requisitem minha presença?
Olhei para ela, com calma. Seus olhos fitavam os meus, e enxergavam as estrelas ao fundo. Eu via aquele brilho irritante no fundo de seus olhos, como se no fim de toda a escuridão, houvesse luz. Mentira.
-Você é um monstro. Carrega o que resta das pessoas por caminhos que elas nunca seguiriam por elas mesmas. Arrasta seus corpos por cima de espinhos e rochas. E você fez isso comigo. Agora devolva-me a Lâmina de Revés ou eu irei arrancá-la de você.-respondi.
-Oh, querido. Você não entende, não é? Revés é uma ameaça para mim. Eu simplesmente não posso...-dizia Esperança, mas foi interrompida...
... por um chute na cara.
-Você não acha que deveria ser menos hostil comigo... um mínimo de respeito depois de ter tentado me matar.-disse a garota.
-Eu não tentei. Eu consegui.-respondi.
-E no entanto, cá estou eu.-disse ela.
-Os humanos costumam dizer que "vasos ruins não quebram".
Ela me olhou com esgar. Um toque de ira surgiu em seus olhos claros, avermelhando-os por um instante.
-Eu não entendo o que eu fiz contra você. Todos os outros me adoram, me idolatram. Rezam para os anjos para que eu apareça diante deles. E você, no entanto, convoca aos Cavaleiros para que requisitem minha presença?
Olhei para ela, com calma. Seus olhos fitavam os meus, e enxergavam as estrelas ao fundo. Eu via aquele brilho irritante no fundo de seus olhos, como se no fim de toda a escuridão, houvesse luz. Mentira.
-Você é um monstro. Carrega o que resta das pessoas por caminhos que elas nunca seguiriam por elas mesmas. Arrasta seus corpos por cima de espinhos e rochas. E você fez isso comigo. Agora devolva-me a Lâmina de Revés ou eu irei arrancá-la de você.-respondi.
-Oh, querido. Você não entende, não é? Revés é uma ameaça para mim. Eu simplesmente não posso...-dizia Esperança, mas foi interrompida...
... por um chute na cara.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Shadowlord
-Onde ela está, agora? - perguntei.
-Ela deixou o Inferno. - respondeu Revés. - Não sei onde pode estar.
Não precisa saber. Se eu chamá-la, ela irá atender.
Deixei Revés no topo de uma montanha no meio do nada e então abri minhas asas e voei para longe. Muito longe. Longe o suficiente para manter meu irmão a salvo. Não temo perder tempo, muito menos tenho pressa, pois tenho a eternidade ao meu dispor.
Encontrei uma clareira no meio de uma extensa floresta. Hemisfério Norte, a julgar pelas sequoias gigantescas. Parei. Ali era um bom lugar.
Saquei minha Lâmina Eterna, criada a partir de minha própria essência e designada a servir meu propósito. As inscrições ao longo de seu comprimento eram nítidas, apesar de bilhões de anos terem se passado desde sua confecção:
"Sou a montanha que nunca desaba
Sou o vento que sempre sopra
Sou o tempo que não acaba
Da Vida, o amor desvanecerá
Da Morte, a tristeza irá findar
E no fim da eternidade
Somente o Orgulho irá restar"
Cortei minha mão e deixei o sangue verter.
"Além dos ventos do Norte,
Onde no frio, reside a Morte.
Venha, do Sul, a Terra
Tal como a glória vem da Guerra
Que venham as nuvens do Oeste
E em sua soleira, tragam a Peste
E ao Leste, ecoa e some
O uivo mórbido da Fome.
Com dor, invoco os 4 Cavaleiros
Deem-me o que quero: vingança
E tragam-me, agora, a Esperança."
-Você poderia ter sido mais discreto, docinho... eu estive aqui todo o tempo.-disse uma voz suave e melosa.
-Ela deixou o Inferno. - respondeu Revés. - Não sei onde pode estar.
Não precisa saber. Se eu chamá-la, ela irá atender.
Deixei Revés no topo de uma montanha no meio do nada e então abri minhas asas e voei para longe. Muito longe. Longe o suficiente para manter meu irmão a salvo. Não temo perder tempo, muito menos tenho pressa, pois tenho a eternidade ao meu dispor.
Encontrei uma clareira no meio de uma extensa floresta. Hemisfério Norte, a julgar pelas sequoias gigantescas. Parei. Ali era um bom lugar.
Saquei minha Lâmina Eterna, criada a partir de minha própria essência e designada a servir meu propósito. As inscrições ao longo de seu comprimento eram nítidas, apesar de bilhões de anos terem se passado desde sua confecção:
"Sou a montanha que nunca desaba
Sou o vento que sempre sopra
Sou o tempo que não acaba
Da Vida, o amor desvanecerá
Da Morte, a tristeza irá findar
E no fim da eternidade
Somente o Orgulho irá restar"
Cortei minha mão e deixei o sangue verter.
"Além dos ventos do Norte,
Onde no frio, reside a Morte.
Venha, do Sul, a Terra
Tal como a glória vem da Guerra
Que venham as nuvens do Oeste
E em sua soleira, tragam a Peste
E ao Leste, ecoa e some
O uivo mórbido da Fome.
Com dor, invoco os 4 Cavaleiros
Deem-me o que quero: vingança
E tragam-me, agora, a Esperança."
-Você poderia ter sido mais discreto, docinho... eu estive aqui todo o tempo.-disse uma voz suave e melosa.
domingo, 27 de junho de 2010
Shadowlord
Saímos do Inferno.
-Revés... o que aconteceu com você?-perguntei.
-Não lembro, irmão. Algo a ver com...-ele começou, mas terminei a frase dele.
-Intriga. Eu lembro.-disse.- Sua lâmina ficou com ela?
-Não, perdi-a no caminho. Ela atirou-me no Inferno e fugiu. Vaguei durante dias, ferido, tentando desesperadamente sair daquelas terras infernais.
-Você está a salvo agora, irmão.
-Não, não estou. Nem você está. Encontrei alguém no Inferno... alguém que nenhum de nós dois gostaria de encontrar de novo... jaz com ela a minha lâmina.
Tremi. Era impossível, não poderia ser verdade. Eu a tinha matado, eu sabia disso. Me lembrava claramente da ocasião. Uma batalha encarniçada, na qual minha existência quase foi terminada. Mas ergui-me, vitorioso.
-Quem encontraste, irmão?-perguntei, sabendo a resposta.
-Encontrei Esperança.
Que os Deuses me protejam.
Pois nada mais no mundo pode.
-Revés... o que aconteceu com você?-perguntei.
-Não lembro, irmão. Algo a ver com...-ele começou, mas terminei a frase dele.
-Intriga. Eu lembro.-disse.- Sua lâmina ficou com ela?
-Não, perdi-a no caminho. Ela atirou-me no Inferno e fugiu. Vaguei durante dias, ferido, tentando desesperadamente sair daquelas terras infernais.
-Você está a salvo agora, irmão.
-Não, não estou. Nem você está. Encontrei alguém no Inferno... alguém que nenhum de nós dois gostaria de encontrar de novo... jaz com ela a minha lâmina.
Tremi. Era impossível, não poderia ser verdade. Eu a tinha matado, eu sabia disso. Me lembrava claramente da ocasião. Uma batalha encarniçada, na qual minha existência quase foi terminada. Mas ergui-me, vitorioso.
-Quem encontraste, irmão?-perguntei, sabendo a resposta.
-Encontrei Esperança.
Que os Deuses me protejam.
Pois nada mais no mundo pode.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Shadowlord
Senti meu nome sendo chamado. Meu verdadeiro nome e não esta alcunha que me foi dada, Senhor das Sombras. Falam isso de mim pois, há muitas eras, eu derrotei e absorvi o aspecto do antigo Senhor das Sombras. Na época, a Legião dos Eternos não existia e nós caçávamos uns aos outros, incessantemente, nossa fome por poder rugindo dentro de nossas existências. Mas eu nunca fui o Senhor das Sombras.
Poucos sabem disso.
E eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar da existência.
-Revés!!!- berrei. Empunhei minha Lâmina Eterna. Uma matilha de Cérberos o envolvia, prestes a banquetear-se no seu sangue eterno.
Mas aquele sangue também era meu, pois somos Irmãos em Sangue.
Tão logo aproximei-me dele, porém, ouvi outra criatura chamando meu nome.
-Afasta-te dele, Senhor das Sombras, pois ele é minha propriedade desde que o capturei.-disse uma voz andrógina.
Virei-me para encarar o outro ser, que eu sabia muito bem quem era.
-Lucifer. Não precisamos fazer isso. Você certamente não precisa dele.-disse eu, com minha lâmina em punho.
-Não ouse desafiar minha ordem em meu território, Eterno.-respondeu o anjo.
Sorri.
-Lucifer. Você sabe muito bem quem eu sou. Sabe muito bem que, enquanto você existir, eu existo. Enquanto a luz existir, vai existir a sombra. E enquanto você for quem você é, eu existirei. Eu sou Eterno, anjo.
A ira que ele sentiu tornou a luz que emanava dele avermelhada. Os cérberos explodiram. Senti a energia que emanava dele tentando me eliminar. Tentativa em vão.
-Pegue o seu irmão e desapareça de minhas terras. Não apareça aqui pelos próximos cem anos.-disse ele, com um arfar entre cada palavra.
Segurei Revés pelo braço e ajudei a erguê-lo. Estava desarmado. Depois recuperaríamos sua Lâmina.
-Até mais, Lucifer, e obrigado pelos peixes.
-Desapareça de minhas terras, Revés... e você também, Orgulho.
Poucos sabem disso.
E eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar da existência.
-Revés!!!- berrei. Empunhei minha Lâmina Eterna. Uma matilha de Cérberos o envolvia, prestes a banquetear-se no seu sangue eterno.
Mas aquele sangue também era meu, pois somos Irmãos em Sangue.
Tão logo aproximei-me dele, porém, ouvi outra criatura chamando meu nome.
-Afasta-te dele, Senhor das Sombras, pois ele é minha propriedade desde que o capturei.-disse uma voz andrógina.
Virei-me para encarar o outro ser, que eu sabia muito bem quem era.
-Lucifer. Não precisamos fazer isso. Você certamente não precisa dele.-disse eu, com minha lâmina em punho.
-Não ouse desafiar minha ordem em meu território, Eterno.-respondeu o anjo.
Sorri.
-Lucifer. Você sabe muito bem quem eu sou. Sabe muito bem que, enquanto você existir, eu existo. Enquanto a luz existir, vai existir a sombra. E enquanto você for quem você é, eu existirei. Eu sou Eterno, anjo.
A ira que ele sentiu tornou a luz que emanava dele avermelhada. Os cérberos explodiram. Senti a energia que emanava dele tentando me eliminar. Tentativa em vão.
-Pegue o seu irmão e desapareça de minhas terras. Não apareça aqui pelos próximos cem anos.-disse ele, com um arfar entre cada palavra.
Segurei Revés pelo braço e ajudei a erguê-lo. Estava desarmado. Depois recuperaríamos sua Lâmina.
-Até mais, Lucifer, e obrigado pelos peixes.
-Desapareça de minhas terras, Revés... e você também, Orgulho.
Shadowlord
Andei durante incontáveis dias.
A eternidade, para mim, passa como um dia de trabalho dos mortais, mas minha vida é muito mais longa.
Ou pelo menos parece ser.
As criaturas do Inferno observam-me, mas o próprio Lucifer deixou-me passar e ninguém questiona sua autoridade aqui. Caminho indiferente à dor e ao sofrimento, sigo meu caminho diante dos pedidos de ajuda. Ninguém aqui significa mais que Revés.
As palavras "o Amor mandou-lhe lembranças" ecoam em minha mente. Lucifer não mente. Ele não precisa. A verdade sempre doeu muito mais. Meus sentimentos confundem-se: estaria Amor me pedindo ajuda ou simplesmente lembrando-me do quanto significou para mim? Do quanto fomos próximos?
Não me interessa. Não mais. Aquilo foi há uma eternidade.
Que passou como se fosse um dia.
A eternidade, para mim, passa como um dia de trabalho dos mortais, mas minha vida é muito mais longa.
Ou pelo menos parece ser.
As criaturas do Inferno observam-me, mas o próprio Lucifer deixou-me passar e ninguém questiona sua autoridade aqui. Caminho indiferente à dor e ao sofrimento, sigo meu caminho diante dos pedidos de ajuda. Ninguém aqui significa mais que Revés.
As palavras "o Amor mandou-lhe lembranças" ecoam em minha mente. Lucifer não mente. Ele não precisa. A verdade sempre doeu muito mais. Meus sentimentos confundem-se: estaria Amor me pedindo ajuda ou simplesmente lembrando-me do quanto significou para mim? Do quanto fomos próximos?
Não me interessa. Não mais. Aquilo foi há uma eternidade.
Que passou como se fosse um dia.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Shadowlord
-Não que eu não esteja admirando a vista, Senhor das Sombras, mas eu acho que você deveria se levantar daí.
Palhaço. Se o orgulho de Lucifer tentasse ocupar o mesmo espaço do Inferno, provavelmente este último explodiria.
Ergui-me. Sou alguns centímetros mais alto que ele, o que claramente o irrita. Ele detesta ter que olhar os outros de baixo.
-Você sabe o que me traz aos teus domínios, Estrela da Manhã. Vim buscar meu irmão, Revés.
-Creio que ele esteja aqui, sim.- respondeu o anjo, aumentando a intensidade da luz que emana de seu corpo. Ele quer compensar o fato de que sou mais alto me provando que consegue "dissipar-me".
-Em que círculo?- perguntei.
-Neste mesmo, as estepes de entrada.-respondeu ele.
-Permita que eu me retire.-disse eu, passando por ele.
-O Amor manda-lhe lembranças, Senhor das Sombras.-disse o anjo caído, com um sorriso.
-Lembre-o de que já o mandei para o Inferno.- respondi rispidamente e segui meu caminho.
Palhaço. Se o orgulho de Lucifer tentasse ocupar o mesmo espaço do Inferno, provavelmente este último explodiria.
Ergui-me. Sou alguns centímetros mais alto que ele, o que claramente o irrita. Ele detesta ter que olhar os outros de baixo.
-Você sabe o que me traz aos teus domínios, Estrela da Manhã. Vim buscar meu irmão, Revés.
-Creio que ele esteja aqui, sim.- respondeu o anjo, aumentando a intensidade da luz que emana de seu corpo. Ele quer compensar o fato de que sou mais alto me provando que consegue "dissipar-me".
-Em que círculo?- perguntei.
-Neste mesmo, as estepes de entrada.-respondeu ele.
-Permita que eu me retire.-disse eu, passando por ele.
-O Amor manda-lhe lembranças, Senhor das Sombras.-disse o anjo caído, com um sorriso.
-Lembre-o de que já o mandei para o Inferno.- respondi rispidamente e segui meu caminho.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Shadowlord
Corri desesperadamente.
Minhas asas são inúteis aqui, pois eu não tenho para onde ir. Arremesso para longe as criaturas abissais que me perseguem, enquanto minha fiel lâmina trilha o caminho do sangue e da raiva. O calor da batalha podia ser sentido de longe e mantinha afastado os mais fracos. Mas não a mim.
Cada passo a frente só faz custar-me uma eternidade, mas não posso desistir. Coisas muito acima da minha importância estão em jogo. Novamente, com uma palavra, retiro centenas de criaturas de meu caminho, mas milhões seguem na esteira destas, tal como as cabeças de uma hidra, que assim que arrancadas dão origem a mais duas.
Ergo um de meus braços e então deixo a energia fluir de meu corpo para as cercanias. Um manto gigantesco de sombras cai sobre meus adversários e sufoca aqueles que são fracos demais para aguentar o peso da escuridão. Minhas pernas começam a tremer. Os milhares de cortes em meu corpo finalmente me desgastam. Com um último esforço, libero de mim uma explosão de sombras e fogo, que consome aqueles ao meu redor.
Caio com o rosto no chão e então ouço passos que se aproximam. Uma voz magnífica, seguida de um jato de luz intensa aparece em minha frente.
-Ah, Senhor das Sombras. É tão bom recebê-lo de volta em meus domínios. Confesso que senti sua falta.
Sorrio.
-Lucifer... quem melhor para se encontrar no Inferno?
Minhas asas são inúteis aqui, pois eu não tenho para onde ir. Arremesso para longe as criaturas abissais que me perseguem, enquanto minha fiel lâmina trilha o caminho do sangue e da raiva. O calor da batalha podia ser sentido de longe e mantinha afastado os mais fracos. Mas não a mim.
Cada passo a frente só faz custar-me uma eternidade, mas não posso desistir. Coisas muito acima da minha importância estão em jogo. Novamente, com uma palavra, retiro centenas de criaturas de meu caminho, mas milhões seguem na esteira destas, tal como as cabeças de uma hidra, que assim que arrancadas dão origem a mais duas.
Ergo um de meus braços e então deixo a energia fluir de meu corpo para as cercanias. Um manto gigantesco de sombras cai sobre meus adversários e sufoca aqueles que são fracos demais para aguentar o peso da escuridão. Minhas pernas começam a tremer. Os milhares de cortes em meu corpo finalmente me desgastam. Com um último esforço, libero de mim uma explosão de sombras e fogo, que consome aqueles ao meu redor.
Caio com o rosto no chão e então ouço passos que se aproximam. Uma voz magnífica, seguida de um jato de luz intensa aparece em minha frente.
-Ah, Senhor das Sombras. É tão bom recebê-lo de volta em meus domínios. Confesso que senti sua falta.
Sorrio.
-Lucifer... quem melhor para se encontrar no Inferno?
domingo, 20 de junho de 2010
Shadowlord
Mas antes de buscar meu irmão, eu tenho que resolver meus problemas.
A situação estava caótica. A Legião dos Eternos estava tão fragmentada e ferida, pela primeira vez desde sua criação, que era impossível até a comunicação entre os membros. E todos, TODOS, estavam encrencados.
Revés estava sumido há algum tempo, mas recebi dele uma convocação urgente.
Mágoa está enrolado em seus próprios problemas.
Conhecimento estava longe demais, distante... parece finalmente ter encontrado paz.
Desprezo é quase incomunicável, não posso contar com ele agora.
Diabos, não posso dizer que estou sozinho...
... mas posso dizer que sou solitário.
A situação estava caótica. A Legião dos Eternos estava tão fragmentada e ferida, pela primeira vez desde sua criação, que era impossível até a comunicação entre os membros. E todos, TODOS, estavam encrencados.
Revés estava sumido há algum tempo, mas recebi dele uma convocação urgente.
Mágoa está enrolado em seus próprios problemas.
Conhecimento estava longe demais, distante... parece finalmente ter encontrado paz.
Desprezo é quase incomunicável, não posso contar com ele agora.
Diabos, não posso dizer que estou sozinho...
... mas posso dizer que sou solitário.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Shadowlord
Um par de asas, negras como o vazio do universo, abriram-se no meio do nada.
Onde a luz encosta, há de formar-se a sombra. O mal é um anátema necessário do bem, uma consequência. Pois há sempre de se estabelecer o equilíbrio no universo, conforme a entropia aumenta, até que finde-se a existência.
Pois bem. Essas mesmas asas abriram-se, milhares de anos depois, em cima de um prédio.
O caos da cidade grande escondia muito mais do que simplesmente um vórtice de infinitas probabilidades. Escondia também coisas antigas, que superavam em idade o próprio mundo e, talvez, o próprio Universo. Essas entidades fizeram parte da gênese de tudo e, ao mesmo tempo, foram geradas por esse mesmo tudo. O velho paradoxo do ovo e da galinha.
Não importa. Pois uma dessas entidades estava em perigo. O Revés.
E era hora de ir resgatá-lo.
Onde a luz encosta, há de formar-se a sombra. O mal é um anátema necessário do bem, uma consequência. Pois há sempre de se estabelecer o equilíbrio no universo, conforme a entropia aumenta, até que finde-se a existência.
Pois bem. Essas mesmas asas abriram-se, milhares de anos depois, em cima de um prédio.
O caos da cidade grande escondia muito mais do que simplesmente um vórtice de infinitas probabilidades. Escondia também coisas antigas, que superavam em idade o próprio mundo e, talvez, o próprio Universo. Essas entidades fizeram parte da gênese de tudo e, ao mesmo tempo, foram geradas por esse mesmo tudo. O velho paradoxo do ovo e da galinha.
Não importa. Pois uma dessas entidades estava em perigo. O Revés.
E era hora de ir resgatá-lo.
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