Não me recordo exatamente como tudo se sucedeu. Lembro que eles apareceram e me cercaram... deveriam ser uns cinquenta ou sessenta. Apontavam para mim, parte me acusando, parte zombando de mim. Eu não nasci para aguentar isso.
As emoções toscas e sem contrapontos rodopiavam dentro de mim, urrando para serem liberadas. Mas não, não era isso que eu queria. Minha vida inteira eu fui preparado para enfrentar situações como essa... entretanto, teoria é teoria e prática é prática. E, na prática, tudo é bem mais complicado.
Meu sangue fervia de raiva, toda a raiva do mundo. A primeira pedra que me acertou foi um incentivo a jogarem outras. Os bastardos riam de mim. Eu era uma aberração, um monstro. Adultos, velhos, crianças: eu era uma piada universal. Meu espírito sussurrava docemente "libere suas emoções, somente por um segundo...". Não, não, não...
Antigamente, eram multidões enlouquecidas com tochas e foices. Agora, são pessoas com as câmeras de seus celulares e seus olhares maldosos. Sempre foi assim: nunca tive um amigo de verdade. Tive algumas pessoas que tinham pena de mim, mas ninguém nunca sentiu compaixão. Tudo é muito intenso e eu resolvi deixar a fúria escoar, só por um segundo...
Quando eu percebi, eu já estava coberto de sangue.
Mas daí eu não podia mais parar."
"Acho que a Foice como instrumento da morte dá à vida uma idéia de colheita: você nasce, você cresce e então você é brutalmente eviscerado por uma entidade maior e com armas mais violentas que as suas..." - Dark Harlequin
quinta-feira, 24 de maio de 2012
terça-feira, 24 de abril de 2012
These are the wizard's last holy sights... The Wizard's Last Rhymes!
“Se você encontrou essas páginas
e não fui eu que lhe entreguei-as, então eu recomendo que você não as leia. Se
você encontrou correntes com elas, então leia e saiba que você já está
amaldiçoado.
E eu já estou morto.
E eu já estou morto.
Enquanto as escrevo, vomito
sangue pelo menos duas vezes por hora. Minha pele enche-se de marcas, símbolos,
estigmas. A íris de meus olhos já tornou-se vermelha e a esclerótica, que os
leigos chamam de “branco do olho”, já está preta. Meu corpo entra em colapso
pelo uso extremo de magia, e meus sucessivos cortes para transformar meu sangue
no combustível de minhas magias só aceleraram esse processo.
Morro carregando o legado dos
Della Rey. E por mais debilitado que eu esteja, tenho certeza que ninguém virá
me matar. Esses são meus únicos momentos de paz. Um whiskey barato e uma
carteira de cigarro estão em minha mesa enquanto escrevo. No momento de minha
morte, é que minha mente nubla. Faltam palavras pra descrever o que sinto...
... porque eu falhei.
Sim, falhei. Ninguém pôs as mãos
nessas correntes, e muitos tentaram. Mas meu corpo apodrecerá e não poderei
mais defendê-las. Irônico como eu literalmente dei a vida para protegê-las.
Sobre minha irmã... eu cometi um
erro atrás do outro até que, finalmente, um dos dois teve que pagar. E foi ela.
Não estava na minha capacidade evitar, era lógico. Era tão lógico que eu,
sinceramente, não acredito que não percebi antes. Minha irmã pagou com a vida.
Sobre Augustus... ele foi um
idiota. Eu jamais poderia ter protegido-o, mas eu poderia ter tentado se ele
tivesse sido honesto sobre suas origens. Talvez um dia, se eu conseguir
resolver minha situação como alma, eu tente resgatá-lo... quem sabe para
matá-lo por sua estupidez.
Sobre o diácono... sim, talvez eu
tenha traído-o. Mas ele arriscou minha vida ao invadir minha casa e fazer dela sua
base de operações. Ele me devia, e eu devia para Smaphael. O protocolo era
óbvio.
Sobre Deborah... talvez a única
coisa que eu realmente pudesse ter mudado, mas ela cavou a sua própria cova.
Tudo que eu fiz foi empurrá-la pra dentro.
Meus dias como humano na Terra
terminam e, sinceramente, eu sequer irei sentir falta. Os dias tormentosos e as
noites mal dormidas. As batalhas contra demônios tão profanos que a própria
Terra urrava de dor com sua presença.
Nenhuma história de amor com uma
anja.
Nenhum anjo rebelde que caiu para
me ajudar.
Nenhum irmão que esteve comigo
incondicionalmente.
Essa é a história de um
verdadeiro caçador de demônios.
E, agora, ela termina.”
-Encontrado, transcrito e publicado por Stride Sinkiller.
-Encontrado, transcrito e publicado por Stride Sinkiller.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Let the Rain
Bom, tem várias pessoas pra quem eu disse que ia escrever e, recentemente, os pedidos de algumas se mostraram mais viáveis do que os de outras. O pedido de minha mais recentemente adquirida irmã, por exemplo, foi quase visionário. Nada mais justo, então, do que escrever a postagem à pedido de minha nee-chan, Sarah.
O céus se fecham e então eu sinto que os portões vão se abrir.
"As lágrimas vieram aos meus olhos como uma chuva violentíssima quando o coração de minha irmã deu sua última batida.
O céus se fecham e então eu sinto que os portões vão se abrir.
E a voz de minha irmã ressoa em minha cabeça dizendo: "deixe a chuva".
Mas não.
A morte de minha irmã foi um golpe baixíssimo do Destino em minha vida. Injusto com ela, talvez merecido por mim. Mas ela definitivamente não merecia morrer, não daquele jeito, depois de horas de tortura. Quantas vezes ela gritou por meu nome? Talvez nenhuma, talvez inúmeras. Quantas vezes ela desejou nunca ter me chamado de volta em sua vida? E o filho dela, que desapareceu? A captura de Augustus, a única pessoa em quem ela confiava? Seria isso tudo minha culpa?
E novamente, à chuva vem. Eu senti, algumas vezes na minha vida, que existia mais no mundo do que minha alma, agora afogada, percebia.
Eu estava errado.
Não existe mais nada. Não existe mais Helena, não existe mais Augustus, não existe mais um possível Della Rey. Não existe mais ninguém em quem eu possa confiar, salvo talvez aquele mago patético que se esconde em minha casa com medo de sair na rua. O mundo torna-se um lugar mais sombrio e terrível a cada segundo, e a maldição dos Della Rey segue implacável, retirando de minha vida todos aqueles que ousam lutar ao meu lado. E agora planos ainda mais profundos que o Inferno espalham seus tentáculos na Terra e, para variar, eu estou no centro do furacão.
E para piorar, é tudo culpa minha
E para piorar, é tudo culpa minha
Os céus escurecem. Não mais em minha alma... mas no mundo real.
Eu gostaria de deixar a chuva vir essa noite.
Mas as sombras de minha vida jamais me deixariam fazer isso."
domingo, 25 de março de 2012
Lost and Damned
Eu sabia, desde que comecei a escrever essa série de postagens com base em músicas, que eventualmente eu iria acabar escrevendo sobre essa música. Sem um pingo de modéstia, dedico essa postagem com uma de minhas músicas favoritas a mim mesmo.
Escrevo-lhe essa carta porque não irei vê-la de novo. Helena, não chore... acredite em mim, eu faço isso por você.
"Cara irmã,
Escrevo-lhe essa carta porque não irei vê-la de novo. Helena, não chore... acredite em mim, eu faço isso por você.
Helena, eu lembro de você ter aparecido em minha vida quando ela tinha apenas começado. E mal sabia eu aonde isso tudo iria parar quando começou...
Eu era uma criança quando você nasceu e, mesmo naquela época, eu senti medo. Medo porque eu sabia como seria a sua vida - com sorte, menos pior que a minha. Sem sorte, você provavelmente não duraria dez anos. E foi com essa idade que eu deixei-a, pois eu sempre fui mais uma ameaça do que uma salvaguarda. Toda vida morre, especialmente ao meu redor. São as correntes da condenação que me amarram à essa tragédia que vivo. É a minha maldição.
A nossa maldição.
Não existe final feliz para nós, minha irmã. Mas seu filho... talvez ele não seja um Della Rey. Talvez ele tenha a sorte de nunca ouvir falar dessa família maldita, talvez ele tenha uma vida... normal. Eu farei o possível pra isso. Eu daria minha vida por isso. Mas não consegui salvá-los, e você sabia que eu não conseguiria. Quando você me chamou, você sabia que eu não conseguiria.
E mesmo assim, quando eu a vi de novo, você me abraçou forte. E, naquele momento, eu senti receio. Uma pequena pontada de medo, como nuvens discretas no céu limpo. E naquela noite, tudo veio abaixo e você sumiu. Portanto, tão logo eu resgate-a... eu quero que você faça o que já deveria ter feito.
Não pergunte porque.
Não se entristeça.
Não se entristeça.
Às vezes temos que mudar os planos que fizemos.
Deixe-me para trás.
Não se arrependa.
Porque no fundo, você sabe...
Deixe-me para trás.
Não se arrependa.
Porque no fundo, você sabe...
E eu sei que você sabe...
Eu já estou perdido e condenado."
Eu já estou perdido e condenado."
sexta-feira, 2 de março de 2012
Runaway Train
"Quando saí de minha casa, dei um adeus e parti com um bolso cheio de sonhos.
Sonhos horríveis e deturpados.
Mas, quando saí, pensei: 'essa estrada escura que eu trilho não me traz escapatória alguma'.
E diabos, eu estava certo. Mesmo com a presença de minha irmã, agora talvez ainda mais intensa do que nunca tinha sido, eu tenho certeza que escolhi o veneno errado. Essa vida não é para mim, ou para qualquer mortal. É dura demais, tem perdas demais e, principalmente, não traz recompensa alguma. Tolos são aqueles entre nós com a mente nobre e que, enquanto acham que fazem um trabalho comunitário, erguem suas barrigas obesas para a pobreza, achando que são reis em um mundo de diamantes.
Idiotas.
Como, COMO alguém pode justificar sua escolha quando acorda gritando? Como alguém pode fingir ser cego quando está enxergando toda a podridão que nos circunda?
Não. Não fazemos nada de bom. Perdemos tudo em nossa vida sem sequer termos um motivo, e para que? Para fingir que estamos cavalgando para um mundo de flores engraçadas? Eu já não aguento mais essa minha vida, sequer aguento minha dor. Faço de tudo para ficar longe de todos. Para não ter ninguém a minha volta.
É apenas uma parte da natureza humana tentar nos manter longe da dor.
Diabos, tudo que eu quero é um trem para fugir daqui."
Diabos, tudo que eu quero é um trem para fugir daqui."
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Fear of the Dark
Parando um pouco com as homenagens, decidi partir pra um clássico. Espero que eu não destrua a música ou desonre-a de qualquer forma.
Mas, diabos, eu não tenho medo do escuro."
"Eu sou um homem que caminha sozinho... e, diabos, se eu caminho por uma estrada escura.
E na verdade, essa foi a minha opção e o meu destino. O destino me forçou a caminhar por uma estrada escura, e eu optei por fazê-lo sozinho. Não é saudável ter gente perto de mim, ainda mais agora com todos esses anjos e demônios atrás de mim. A solidão doi, de vez em quando... mas a perda sempre doi muito mais.
Eu estou acorrentado ao meu destino, literalmente.
Pior que a perda em si, talvez, seja o medo de senti-la quando tenho alguém comigo. Como aconteceu com ela, como aconteceu com a minha irmã recentemente... Eu tenho medo de muitas coisas. Eu tenho medo constante de que tem algo próximo de mim, algo que eu não vejo, mas sinto, que eu não ouço, mas posso quase farejar... O medo de que minha hora solene esteja chegando. Meus medos são quase maiores do que minha dor e meu tormento.
Quase.
Depois de minha irmã, de quem a completa ausência de notícias me é tranquilizante, eu percebi que estou condenado de vez a viver sozinho. Ela fez muito por mim, mesmo em pouco tempo: as informações que tive a partir dos estudos dela me guiaram a uma compreensão maior de como usar minha maldição em favor próprio. As Correntes de Halzazee cobram o preço de seu poder em sangue... e, pelo visto, eu estou pagando muito bem. Temo pelo dia que talvez eu não consiga pagá-lo...
Tenho medo de muitas coisas. De como tudo pode terminar, de como talvez eu não descanse nem depois de morto. De como a posse contratual de minha própria alma pode trazer um final ainda mais escuro à estrada que sigo...
Tenho medo de muitas coisas. De como tudo pode terminar, de como talvez eu não descanse nem depois de morto. De como a posse contratual de minha própria alma pode trazer um final ainda mais escuro à estrada que sigo...
Posso ter medo do fim da minha estrada.
Mas, diabos, eu não tenho medo do escuro."
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
The Haunting (Somewhere in Time)
Amizades antigas são difíceis de explicar. Sem muitas delongas, entrego o texto que escrevi com a música escolhida por um de meus grandes amigos, em quem muito confio e a quem muito devo.
Essa é a tua, Lucas.
E que felicidade isso me trouxe ao ouvir sua voz, minha irmã. O fato de eu ainda ter uma família foi o maior consolo que tive nos últimos vinte anos, desde que deixei tudo para trás para viver uma vida de paranoia e fuga. Quando eu disse que para você me deixar enquanto ainda podia.
Mas você não me ouviu e me procurou, e me levou de volta para a sua vida.
E as coisas pioraram, rápido. Tudo piorou e então você foi tragada de volta no redemoinho que corre em nosso sangue. Você foi atacada por meus inimigos até sua mente estar em pedaços. E quando não há mais virtudes para defender, você cai.
Fundo.
Eu sinto muito. Muito mesmo. Eu não pude fazer nada para protegê-la... eu sequer pude me proteger quando me dispus a dar tempo para que você fugisse. Mas sim, eu derrotei aquela criatura. Se isso lhe servir de consolo, eu a derrotei. Eu nunca vou me orgulhar tanto de alguma coisa quanto me orgulhei daquilo: de quando olhei para você e disse 'vá embora essa noite, eu fui longe demais para poder começar tudo de novo...
... com alguém como você.'
Eu posso não saber onde você está, sequer saber se você está viva. Mas uma coisa eu prometo, do fundo de minha alma, minha irmã...
... Em algum momento do tempo, eu irei encontrá-la e assombrá-la de novo.
Obrigado por tudo."
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