domingo, 11 de julho de 2010

Shadowlord

Os corpos estavam espalhados pelo chão. Milhões deles.

Meu olhar percorreu aquela sombria carnificina, enquanto meus ferimentos cicatrizavam lentamente. Minha Lâmina Eterna, a parte de mim responsável por enfrentar meus inimigos, estava saciada. Era hora de continuar meu caminho.

No entanto, algo chamou minha atenção. Uma daquelas criaturas era diferente das outras. Eu não tinha notado isso durante a batalha, mas agora eu via com clareza. Ela era um Eterno.

Como um de nós poderia estar lutando ao lado daquelas criaturas? Eu não conseguia reconhecê-lo a essa distância. Por um momento, temi: talvez fosse alguém mais poderoso que eu. Confiei nas minhas capacidades e segui em frente.

Erro que talvez eu não vá viver para me arrepender.

Desespero agarrou-me pelo pescoço. Desgraçado. Minha Lâmina voou para longe enquanto eu me debatia futilmente tentando livrar-me daquelas garras amaldiçoadas. O rosto perturbado deu um sorriso.

-Orgulho.-disse ele.-Não me admira que não tenhas me reconhecido. Sua arrogância lhe cega.

Ele sacou sua própria lâmina.

-Termine com isso, Desespero. Vingue sua amada Esperança, pois eu matei-a de novo.

Por um momento, eu vi a ira queimá-lo por dentro. Desespero e Esperança sempre dependeram um do outro.

-Não vou matá-lo. Vou fazer pior.-disse ele.

E então eu vi um tentáculo apanhar minha Lâmina ao longe. Me debati enfurecidamente. Eu sabia o que ele iria fazer. Não poderia deixar. Lutei com todas as minhas forças, mas o Desespero é um dos mais poderosos dentre nós. Minha luta foi em vão.

E então eu senti a ponta etérea de minha própria Lâmina atravessar minhas vísceras. Senti parte de meu poder fluindo para dentro dela, enquanto o corpo que eu habitava foi ficando cada vez mais vazio. E então, eu estava completamente contido dentro daquela lâmina. Ele atirou a espada no chão.

-Erga-se Orgulho. E você também, Senhor das Sombras.

E foi com espanto que eu me vi não mais como o Orgulho, mas como o Senhor das Sombras. Por tanto tempo foi essa minha alcunha que entrelacei-me mais a esse aspecto do que ao meu aspecto de origem. Contemplei o Orgulho: aquela minha velha armadura. Era uma questão de honra, eu iria pegá-la de volta.

Com um sorriso de desprezo, o atual Orgulho desapareceu de minha frente.

-Até mais, Orgulho... ou devo chamá-lo de Senhor das Sombras?-disse Desespero, com um sorriso.-E tente enfrentar minha irmã, Esperança, agora.

Maldito seja ele.
Maldito seja.
Maldito.

All bridges... on fire!

Eu não canso de repetir que cada passo adiante fecha as portas do nosso passado.

Cada segundo é um passo irreversível em uma via de mão única, na qual não sabemos o que vem pela frente e sabemos só um pedaço do que ficou pra trás. Não importa se lembramos do caminho: ele simplesmente não existe mais. Certamente os caminhos das pessoas podem se cruzar mais de uma vez: no entanto, nada é o que um dia foi.

As memórias são nosso único guia. Algumas vezes, elas simplesmente nos fazem desistir de tudo. Em outras, é a memória que nos faz erguer a cabeça e continuar caminhando.

Há muito tempo atrás, em uma carta de Magic chamada "Entregar-se às Reminiscências" (muito boa por sinal, é um feitiço que custa duas quaisquer e uma azul e faz tu embaralhar cemitério com deck... duas dessas num baralho e tá decretada a reciclagem absoluta), eu vi uma frase que, sem dúvida, me marcou muito. Eu anoto ela sempre que posso (ela tá na minha parede), porque ela me lembra do quanto nossas memórias são importantes.

"Deixe a porta para o passado levemente entreaberta e ela poderá ser arrancada de suas dobradiças."

Chama-se "nostalgia" e começa com aquela sensação de "porra que pariu essa merda do caralho, que diabos tá acontecendo comigo?"

Pronto. Parabéns. Agora o Tiririca te despreza... e você, meu filho, você está a ponto de ir pra vala.

See you around, guys...
"My freakshow will start TONIGHT
Don't miss the right time."

sábado, 10 de julho de 2010

Shadowlord

Mágoa estava desesperado e distante.

Revés estava se recuperando.

Esperança morreu.

E eu me vi cercado. Aquelas malditas criaturas. Eu estava em outro plano, muito maior que a Terra. Saquei minha lâmina. Desgraçados. Vou fazer com que eles paguem. Por um momento, aquilo me parecia o fim. Sozinho, como sempre estamos no fim das contas. Tenho aliados com os quais posso contar, mas nem sempre eles estão em condições de me ajudar. Minhas asas abriram-se, como um alerta para aqueles que ousassem avançar. Posso não ser a Morte em si, mas certamente quem permanecer em meu caminho há de encontrá-la.

As sombras ao meu redor solidificaram-se e formaram uma armadura. Há milhões de anos, a mesma armadura se formava antes de minhas batalhas. O peitoral tinha meu símbolo inscrito e em relevo. As ombreiras sustentavam uma longa capa, também feita de sombras. O cinturão tinha a face de um lobo de perfil. O elmo era ausente: não quero que meus inimigos esqueçam a face de seu nêmesis.

A boa e velha armadura.

O bom e velho Orgulho, com um toque de sombras.

Quando a primeira daquelas bestas avançou em minha direção, um sorriso formou-se em meu rosto.

Eu estava em um lugar pior que o Inferno. E era hora de abrir a golpes de espada o meu caminho de volta.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Just close your eyes...

Diabos.

Eu vejo pessoas fazendo as mais diversas coisas pensando no que vem pela frente. Olhar sempre longe, o futuro. Eu também faço isso. É até meio contraditório, algumas vezes, ver pessoas que acreditam em destino se preocuparem com o futuro. Afinal de contas, se está no seu destino, não interessa o que você quer ou o que você faz. VAI acontecer.

E no entanto, eu passei muito tempo da minha vida vivendo em apenas um tempo: o futuro. Era o futuro que me interessava, "quem eu serei e o que eu farei". O olhar fixo na distância, "existe glória na distância para todos aqueles que pagarem o preço".

Depois de algum tempo, pensei nos 3 tempos fundamentais de existência. Passado, presente e futuro. E comecei a valorizar os 3. Quem eu fui, quem eu sou e quem eu serei. Mire alto, sempre. O teu limite são os teus objetivos: se mirares o Sol, então é até lá que poderás tentar ir. Nosso futuro é construído pelas nossas mãos e blablabla...

Bobagem, pelo menos uma parte disso.

Afinal de contas, que são esses tempos? Formas de percepção? Não se pode perceber o passado pois ele não existe mais. Não se pode perceber o presente pois ele é tão efêmero que nossa capacidade jamais nos permitiria entendê-lo. Não se pode perceber o futuro pois ele ainda não existe (a menos que tu acredites em destino, mas daí não muda nada, porque a tua vida já tá determinada, mesmo).

Nenhum dos 3 tempos existe para nós. Nós não os percebemos. O passado são nossas memórias, e elas mudam e desaparecem. O presente passa tão rápido que não temos tempo de percebê-lo. O futuro são probabilidades, quase infinitas. Podemos tentar prevê-lo, mas não existe certeza onde existem chances. Não se pode confiar no futuro.

A melhor forma de viver não é manter os olhos onde a estrada termina.

É simplesmente fechar os malditos olhos, pressionar com toda a força a merda do acelerador, deixar o vento bater no capacete e seguir a porra da estrada.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Shadowlord (Interlúdio)

Ao voltar para a caverna, encontrei Revés já recuperado.

-Aqui está, meu irmão... vossa lâmina.-e atirei a arma para ele.

Revés pegou-a.

-Não consigo acreditar que a derrotaste de novo.-disse Revés.-Você me surpreende algumas vezes.

Sorriso besta no rosto. Não tinha vencido a guerra. Nunca venceria, mesmo que eu vencesse todas as batalhas. Esperança pode estar enfraquecida, mas ela nunca finda. E, enquanto isso, o resto da Legião ainda me preocupava. Minhas notícias deles eram escassas. Fora isso, eu sentia que algo ameaçava, embora não pudesse notar direito o que era. A aparição de Pureza era inesperada, bem como a de Esperança. Algo estava errado. Muito errado.

E era hora de começar a investigar.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Shadowlord

-Senti seu aspecto enfraquecendo. Vim ajudá-lo, mas cheguei tarde.-respondeu ela.

As árvores saíam de cima de meu corpo e eu me sentia recarregado. Os cortes fechavam-se conforme eu ia me levantando, mas as cicatrizes ficavam.

As marcas sempre ficam.

-Ainda não entendo porque você faz isso, Senhor das Sombras.-disse ela, com uma voz de violino.- O que tanto você tem contra a Esperança?

-Tudo que eu poderia ter contra alguém desprezível como ela.-disse eu, guardando a lâmina de Revés.-Consegui de volta o que eu queria.

-Você subestima a força dos outros aspectos, Senhor das Sombras. Não existem somente sombras no mundo.

Olhei fundo para os olhos dela. Eles brilhavam com inocência.

-Pureza, o que vossos olhos não veem é a sombras que são reveladas na noite, sob o brilho das estrelas. A luz que emana de ti apaga os tons de cinza e reflete de forma diferente nas diferentes coisas, mas a verdade é que o mundo é em preto e branco. E, portanto, é feito de diferentes tonalidades de cinza. As cores são uma forma apenas de tornar menos desagradável o que existe ao nosso redor.

Ela me encarou, com uma nítida confusão no olhar.

-Como você pode aguentar sua existência?-perguntou ela.

-Eu não aguento, mas não tenho outra opção. Alguns Eternos precisam de mim.-disse eu.-E nesse momento, Revés é um deles.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Shadowlord

A batalha encarniçada tinha começado, uma batalha que eu não sabia se venceria.

Atacávamos um ao outro como lobos, ursos, serpentes e qualquer outra fera da Terra. Nossas Lâminas Eternas ansiavam pelo sangue. Essa era a única mácula das armas dos Eternos.

Elas sempre ansiavam pela batalha.

A lâmina da Esperança era em forma de sabre, mais afiado do que qualquer coisa, pois quando a esperança toca em algo, ela arrebata. O simples toque de sua arma seria capaz de me derrubar. Mas ignoro isso. Acumulei raiva e desprezo por ela durante toda a existência do universo. E agora ela ousava mexer com um de meus irmãos.

Minha lâmina é irregular, como se a fosse a sombra bruxuleante criada pela luz de uma vela. Era afiadíssima, também, porque as sombras conquistam tudo em que encostam.

-Você é estúpido, Orgulho. Eu serei a última a morrer dentre os Eternos. Você sabe que eu existo enquanto meu aspecto existir.

Fiquei quieto. Eu estava encharcado em sangue, destruído. Mas ainda não derrotado.

Ataquei com toda a fúria que eu tinha guardado.

-Então quero vê-la daqui mil anos, sua idiota. Ninguém precisa de você enquanto o Orgulho puder mantê-lo caminhando.-disse eu, com a Lâmina atravessando o coração dela.

A Morte de um Eterno abala as fundações do Universo. Um jorro de luz seguido de uma onda de choque emanou do cadáver da Esperança. O parque de sequoias gigantes desabou sobre mim.

Faltava força para arrancar as árvores de cima de mim. Eu sentia que a Esperança estava certa: ela ainda não estava morta. Mas pensaria duas vezes antes de aparecer de novo. A Lâmina de Revés estava em minha mão esquerda. Mas não mudaria nada.

Ouvi árvores sendo atiradas longe e o peso sobre mim diminuiu.

Um rosto conhecido apareceu dentre as copas misturadas das árvores.

-Pureza... achei que tivesse me esquecido.